Pellanda e os seus peregrinos discretos

Posted on 07/11/2016

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(Imagem: Rafael Dabul/Divulgação) 

Luís Henrique Pellanda é um ilhéu curitibano. A casa em que nasceu no Capão Raso é uma ilha de resistência, em meio à amplidão oceânica dos lotes. Não se pode resistir ao progresso, mas nem por isso se deve abrir mão da luz, da vista e do horizonte, que é basicamente o que ele procura em um apartamento, desde que começou a viver no Planeta Prédio. É preciso que haja um terraço, uma janela, Pellanda não pode ver uma parede que já quer esburacá-la. De lá ele contempla uma cidade, um oceano adormecido, e com cada vez menos recursos afetivos.

Mas Pellanda nunca está só, é sempre ele e seus personagens, e juntos constituem um grupo de peregrinos discretos, vivendo em uma cidadezinha ficcional e suas ruas legíveis, no feitio de narrativas. Vá lá que nem tudo o que escreve seja verdade: todo narrador cultiva algum amor pela mentira e pela subversão. Mas, também, toda narrativa tem um fundo lodoso de verdade. No mínimo, uma história é sempre a ponte mais segura entre dois silêncios. O cronista, esse cortejador de coincidências, apenas revela o fantástico com que a gente convive o dia todo.

Nós, que seguimos tão apressados pelas ruas da cidade, provavelmente sequer percebemos os enigmas e encantos que ela nos oferece. Pellanda, por sua vez, está extremamente atento às pessoas que encontra pelas ruas e praças de Curitiba. É por ser tão observador que consegue criar personagens tão vivos: um velho que anda com a menina no colo, outro que cruza o Passeio Público, uma moça que escava um canteiro na Pracinha do Amor, um homem de olhos vendados sentado na mesma praça, e ainda um perseguido pela mulher na Saldanha Marinho…

Nós, se topássemos com esses personagens, talvez mostrássemos algum tipo de curiosidade, mas seguiríamos adiante, questão de prioridades, temos sempre tanta coisa por fazer. Pois é exatamente sobre eles que Pellanda se detém, não porque queira mostrar como são exóticos, mas para, quem sabe, num vislumbre, descobrir a nossa própria humanidade. É, pois, um olhar cheio de simpatia que o cronista lança às figuras que, de outra forma, pareceriam tão comuns. Ele não está interessado em grandezas, um tanque de tilápias pode fascinar mais do que o mar.

“É exatamente sobre eles que Pellanda se detém, não porque queira mostrar como são exóticos, mas para, quem sabe, num vislumbre, descobrir a nossa própria humanidade”.

É em busca de pequenas situações, enigmas do cotidiano, belezas insuspeitas, que o cronista sai de casa, às vezes para passeios que a maioria de nós julgaria extravagantes, como o de visitar certas árvores da cidade – pois ele se sente bem próximo de ser um dendrólatra. Gosta de árvores, e um bom tanto disso deve vir da mãe, que sempre viveu entre jardins e pomares e plantou centenas de árvores. Tornou-se, inclusive, ao lado da filha, guardião de duas pequenas araucárias na Praça Osório. Também gosta de flores e de bichos – de maneira especial, urubus.

Claro, ele pode até não gostar muito da ideia de estar lucrando em cima dos urubus que se instalaram no terraço de seu apartamento na Ébano Pereira, mas o fato é que os simpáticos abutres estão entre os personagens mais marcantes do seu “Detetive à deriva” (Arquipélago, 2016). Cabe ao cronista o mérito de ter comovido e preocupado uma multidão de leitores com o drama dos seus animais carniceiros – até houve quem acendesse uma vela por eles. Também há papagaios, urubus e papagaios, aves que nem sempre estão entre as preferidas dos cronistas.

Por vezes, ele viaja para Guaratuba, mesmo que seja no inverno, quando o balneário aproveita para se verticalizar escondido. O litoral é o seu plano de escape, a sua fantasia de evasão. E de vez em quando a infância lhe volta por meio de reminiscências tortas, incompletas. Os trajetos que faz acompanhado de sua filha ganham um sabor a mais, sob o seu olhar infantil. E assim ele vai amarrando as pontas soltas deste e daquele acontecimento, até chegar a um nó original – e o faz com tal engenho que não são muitos os que conseguem repeti-lo na crônica contemporânea.

Henrique Fendrich

detetive

Detetive à deriva – Luís Henrique Pellanda

Arquipélago Editorial, 226 p., R$ 39,90

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