O que é a vida [Cássio Zanatta]

Posted on 07/11/2016

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Cássio Zanatta*

Pai e filho entraram em silêncio no bar e sentaram–se nessas cadeiras de ferro toscas, de dobrar. Espiaram em volta, sem cruzar os olhares. Pediram ao garçom um pingado para ele, um suco para o filho. O pai, muito sério, respirou fundo e disse, com solenidade:

– Meu filho. Sabe o que é a vida? A vida…

Pausa. Cabeça baixa. E depois de coçar o queixo:

– A vida, meu filho…

Nesse momento, houve a explosão. Parecia uma explosão, um barulho muito forte que assustou todo mundo. Era um galho que despencou da árvore em frente, amassando a capota de um carro estacionado ali. Na queda, caiu também um ninho de passarinho com um recém-nascido. Não vai sobreviver. A mãe não poderá salvá-lo, ainda mais com aquele gato no muro, espreitando, só esperando o movimento se acalmar um pouco.

A dona do carro estava no bar. Primeiro, se desesperou, ao ver o estrago na capota e disse um “meu Deus!” tão doído, que uma só exclamação não faz jus. E levou as mãos aos cabelos, que, para ser franco, estavam loiros demais, falsos, a tintura não lhe caíra bem e pior ficaram com as mãos engorduradas do bauru que ela comia.

Um homem apareceu para acalmá-la, dizendo que ela teve foi sorte de não estar dentro do carro. O galho devia pesar uns cem quilos, imagine isso despencando na sua cabeça. Ela olhou para ele, pensou bem e viu que ele tinha razão e olhos verdes, meio cinzas, dependendo da luz que batia sobre eles.

Do outro lado da rua, uma cigana assistia a tudo e não parecia nem um pouco surpresa. Uma abelha levantou voo de um quindim para espiar os acontecimentos. A foto do papa atrás do balcão a todos abençoava. Três celulares afrontaram o silêncio, e cada dono atendeu ao mesmo tempo. Um freguês confundiu sal com açúcar e adoçou a coxinha – mesmo assim, comeu, fazer o quê?

A árvore podia estar coberta de flores e, na queda do galho, ter espalhado pétalas por todo o bar, mas isso não aconteceu. Também podia ter havido uma caixa de marimbondos e, na queda, ter sido aquele fuá, mas isso também não aconteceu.

Aconteceu foi que uns moleques passaram, controlando a bola com habilidade, sem deixar pingar no chão, por milagre não pisaram no filhote de passarinho caído, não notaram o estrago na capota, nem os olhares que a dona do carro lançava ao senhor de olhos ora verdes, ora cinzas. A cigana previu que eles estavam ou voltando, ou indo jogar bola.

Aconteceu também que o balconista, talvez para aliviar o ambiente, resolveu colocar uma musiquinha. Mas ligou o som tão alto e escandaloso que assustou todo mundo, parecia que a árvore toda tinha resolvido cair. Ele desligou o som e só se ouviram as vaias. E a buzina do carro com a capota amassada que, de repente, se lembrou de disparar.

Então o pai concluiu:

– Pois a vida, meu filho, a vida é isso que você está vendo. Às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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