Amor e ilusões do mesmo porte [Raul Drewnick]

Posted on 06/11/2016

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Raul Drewnick*

Quando se despe da retórica, na qual é mestre, o amor se mostra como realmente é: não o altivo pássaro de canto mavioso descrito pelos românticos, mas um franguinho que, escapando das asas da mãe, é apanhado por um temporal e, tremendo de frio e fome, é incapaz de emitir um pio, resignado em sua desesperança.

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A mais velha das três putas notou minha hesitação e, antecipando-se às outras duas, foi me puxando da sala para o quarto. Perguntou se era a minha primeira vez e, antes que eu respondesse, fez outra pergunta: “Trouxe o pintinho?” Amedrontado, eu disse que sim.

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Talvez a vida seja mesmo bela. Por que tantos lábios sorridentes mentiriam para nós?

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Uma pedra discutia com outras pedras a questão das cláusulas pétreas.

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Atirou uma pedra no lago e ficou esperando um haicai.

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Há os poetas e há os poetas de carteirinha. Os primeiros fazem poesia. Os outros fazem reuniões.

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Alguns escritores se empolgam tanto ao descrever seu trabalho que é como se fossem Deus explicando o processo da Criação.

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Não precisamos de ninguém para nos atormentar a vida. Mas como procuramos…

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Passando sob um poema concreto, o correto e o prudente é usar um capacete.

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Os orifícios são as mães de todos os vícios.

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O problema dos escritores é que, mesmo quando nada têm a dizer, se sentem obrigados a dizê-lo.

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Ninguém jamais poderá dizer que tem o hábito de banhar-se no rio de Heráclito.

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Um trocadilho ora é uma forma de arte, ora é um disparate.

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Por fora ele é um portento. Por dentro, nenhum talento.

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Há tanto tempo falo mal da vida que nem recordo mais por quê.

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Não diga que lhe faltam motivos para rir antes de olhar bem para você mesmo.

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Só ao dar com os burros na água notou que era um deles.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas