Kafka candango [Daniel Cariello]

Posted on 03/11/2016

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Daniel Cariello*

— Bom dia, senhor, eu preciso carimbar um documento, por favor.

— Para carimbar documentos, você tai ter de passar no Departamento das Demandas Dementes e conversar com o subsecretário de autorizações urgentes. Ele vai consultar o secretário, que vai falar com o diretor e pedir a anuência do gerente da área. Acontece que ele certamente não tem poderes para deferir seu pedido e vai solicitar gentilmente o breve encaminhamento de seu documento à Secretaria de Serviços Simples e Sossegados.

— É rápido?

— Claro que não.

— E não tem outra maneira?

— Até tem. Você pode passar na Comissão das Causas Confusas e solicitar uma audiência com o relator de cartas circulares. Ele não tem acesso ao carimbo, mas vai te apresentar ao Cardoso da contabilidade, que uma vez fez um favor à Danuza da informática, que já namorou o Fonseca do almoxarifado, que emprestou uma grana ao Penedo da administração, que dá sempre carona para a dona Solange.

— Então é a dona Solange que vai me ajudar!

— Não. A dona Solange faz o melhor café com pão de queijo da cidade. Você dá uma passadinha no local de trabalho dela para recobrar as forças antes de continuar o périplo, que passa pelo Tadeu da gerência e depois…

— Ai, ai. Eu só preciso carimbar esse papel. Não é possível que haja tanta burocracia.

— Bom, já que você tem pressa, existe um caminho alternativo: passar na Administração dos Assuntos Adiáveis. O gestor vai avaliar a pressa do seu pedido utilizando o algoritmo de Behr.

— Algoritmo de Behr?

— Uma fórmula desenvolvida pela Nata dos Notáveis, que se reúne dez horas por dia, cinco dias por semana.

— Por que eles são notáveis?

— Porque se reúnem dez horas por dia, cinco dias por semana e não chegam à conclusão alguma. Não é um fato admirável? Assim que estão para terminar um assunto, a semana acaba e eles precisam repassar o tema na segunda-feira seguinte, do começo, para que não haja dúvidas sobre as decisões a serem tomadas. Em quinze anos de existência, o grupo não resolveu nada.

— Você diz que a Nata dos Notáveis não decide nada, mas não foi ela que criou o algoritmo de Behr?

— A fórmula está incompleta, mas prometeram terminá-la na semana que vem.

— Então já vi, meu caso não tem jeito, vou ter de desistir de carimbar minha certidão.

— Peraí, por que você não falou logo que era uma certidão? Nesse caso, é comigo mesmo.

— Mas que sorte! Você pode então carimbá-la, por favor?

— Desculpa, mas não vai dar.

— Não?

— Infelizmente, não. Você terá de voltar depois. O carimbo de certidões está desatualizado. Mas não se preocupe, deve chegar um novo na semana que vem. Ou no mês que vem. Ou no ano…

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas