Retrato do humorista quando jovem [Carlos Castelo]

Posted on 02/11/2016

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Carlos Castelo*

O Língua de Trapo – e a totalidade do que produzi até hoje em termos de humor – começou no Colégio Bandeirantes, em São Paulo. É algo paradoxal, já que a instituição de ensino é conhecida por sua seriedade. E essa seriedade, em minha época de ginasiano, beirava a sisudez. Mas assim foi. Tudo começou com uma excursão para a Caverna do Diabo. Fui um garoto standard e voltei humorista. No retorno dos estalagmites e estalagtites acabei tendo um desarranjo e me borrei de cima a baixo dentro do ônibus.

O que aconteceu comigo nas dependências daquele coletivo não foi bullying, foi uma lavagem intestinal e cerebral de primeira. E, ao voltar às aulas na segunda-feira, ainda fui zoado por um professor. Não tive dúvida. Quando ele me perguntou se tinha me obrado, respostei-lhe que fezes era ele quem tinha na cabeça.

A resposta, na lata, me transformou rapidamente numa espécie Groucho Marx mirim do Colégio Bandeirantes. E, como não era nem o mais forte, nem o mais bonito, nem o mais cdf, acabei sendo o mais engraçado de todos.

Meu primeiro esquete aconteceu na aula do professor Borges, de Português. O velhinho usava óculos para dirigir-se à turma e os tirava para escrever “na pedra”. Reparando aquilo, propus uma coreografia aos colegas. Quando ele virasse para a classe sem as lentes, todos os alunos se inclinariam para a esquerda nas carteiras.

Ao dar com aquela aberração óptica, mestre Borges pegou desesperadamente os óculos. Só que ao colocá-los sobre o nariz todos já tinham voltado à posição original. Ele repetiu a operação algumas vezes e a coreografia seguia perfeita como a do balé Bolshoi. Até que um colega errou a virada. Já sabendo de minha fama de comediante, Borges apontou o dedo na minha direção e berrou:

– Castelo, diretoria!

Para fazer que estava estudando em casa durante a suspensão, comecei a folhear o livro de Literatura recomendado pelo mesmo professor. Nele havia um pouco de tudo: de Padre Vieira a Almeida Garret. Foi quando dei com os poemas satíricos de Gregório de Matos. O primeiro que bati os olhos foi este:

“Provo a conjetura já
Prontamente como um brinco
Bahia tem letras cinco
Que são B-A-H-I-A
Logo ninguém me dirá
Que dous ff chega a ter,
Pois nenhum contém sequer,
Salvo se em boa verdade
São os ff da cidade
Um furtar, outro foder”

Li o poema dezenas vezes. E, após alguns dias, tive duas revelações:

1. As palavras podiam ser muito mais poderosas do que as aulas de Literatura sugeriam.

2. Minha química com elas era bem razoável.

Deu no que deu.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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