Síndrome da segunda-feira [Elyandria Silva]

Posted on 01/11/2016

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Elyandria Silva*

Todo final de domingo é uma carta de amor inacabada. Palavras que não foram escritas. Nem ditas. Coisas que ficaram por fazer. A segunda-feira chegando como um ladrão no escuro, metendo medo. Um medo estranho, até bobo, do recomeço do cotidiano. A preguiça boa roubada à mão armada. No passado, consultar o horóscopo ajudava, hoje não mais. Uma coisa não mudou: gosto quando o signo diz que a cor do dia é verde. No passado, agora e sempre: muita roupa verde no guarda-roupa. A esperança com mangas, botões e pregas. Era menina, a síndrome começou naquele tempo. Síndrome da Segunda-Feira. O domingo começava baixar a cortina, a angústia começava. Borboletas no estomago, silêncio pelos cantos, a luta com o nada. Se chovia no dia seguinte era certeza de não querer ir à aula Não era preguiça, era pavor sem causa, besteira séria trancafiada.

“Você gira em círculos”, alguém me diz. “Sim, no domingo sim, me é permitido”. Tenho um monstro a enfrentar no outro dia, a segunda. Logo, tudo posso no 7º dia. Hoje apavora bem menos o tal dia. Tentáculos mortíferos, os problemas. Garras afiadas assassinas, a realidade das vidas secundárias, aquelas que não queremos ter, alguém nos mandou de presente. Chega de reclamar. Assim que vier a terça-feira tudo entra nos eixos, a rotina se acomoda entre tudo e todos. A vida segue sem perguntar a que veio. Fica bom, é assim mesmo.

Depois de tanto tempo deu vontade de ler o horóscopo. Vou transcrever exatamente: “A semana para Sagitário: Na quarta-feira, o Sol entra em Áries e marca o início de um novo ano astrológico. O temperamento onipotente dos sagitarianos será testado pelo céu. O encontro entre Marte e Urano na casa dos romances promete relações novas e estimulantes, enquanto os planetas em Peixes multiplicam a sua sensibilidade. Mas vai ser preciso aprender a falar sobre o que você sente.”

Quando o leitor ler esta crônica o Sol já terá entrado em Áries. É domingo, quase meia-noite. Estou pronta para ser testada e, sim, tenho características de onipotência, já melhorei muito! Dispenso relações novas. Falo sobre o que sinto todos os dias, Terapia Express. Sou de Sagitário, não fumo, não bebo, evito comer carne, não gosto de chocolate. Que bom que hoje é quarta porque detesto a tal segunda-feira.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas