Dois dias de outubro [Alexandre Brandão]

Posted on 30/10/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

No dia 17 de outubro, acordei e fui ao Aterro correr um pouco. Ao contrário de outras vezes, a corrida foi sofrida, talvez porque o calor já ocupasse seu espaço, do qual não arredará pé por longos quatro, cinco meses. Certa vez, ouvi um sujeito dizer que seria preciso que houvesse guerra para que houvesse paz. A paz seria, nesse pensamento, apenas uma ideia abstrata e absurda, haja vista que, se terminasse a guerra, a paz não poderia começar, pois ela só existe em oposição à guerra — não existindo esta, não haveria aquela. Somos muito bons em dar nó nas ideias, embora, no caso, a culpa talvez seja de uma leitura apressada dos dicionários, que definem paz como ausência de guerra. Tento defender o indefensável, vamos adiante. Contei sobre esse contorcionismo intelectual apenas para pegar o mote e dizer: o inverno, no Rio, é o não verão, logo, não existe. O calor que reteve minhas passadas habitualmente vagarosas no Aterro, sempre esteve por aqui, às vezes brando, o que não acontecerá de agora até março, abril.

Dia 16 foi aniversário de meu amigo Marco Ajeje, um artesão mágico que a histórica Tiradentes soube receber de braços abertos. Trabalhando sobretudo com madeira de demolição, Marquinho, ciente das lições de antigos mestres, ouve o que a madeira tem a dizer e dá forma ao que ela pede. Meu amigo tem pendores para a escrita, mas não sei se escreve, contudo na madeira ele entalha poemas, não há outro nome a dar a seus trabalhos.

Nasceram num 17 de outubro a Mariana Ianelli e o Tacilinho, outros dois artistas. Mariana, poeta e cronista, uma das que escrevem — e como escreve! — na revista Rubem. Tacilinho, músico. Dela sei quase nada além do que conta em suas crônicas, ou seja, por sorte, conheço — e esse conhecimento é aberto a todos — a Mariana em estado de poesia. Já ele é um velho camarada, com mais de cinquenta anos de música nas costas — tecladista do Edinho Santa Cruz, banda de baile que ficou conhecida por fazer cover dos Bee Gees, na época do “Embalos de sábado à noite”, e por ter tocado ao longo de quatro anos no programa do Faustão. Na véspera de seu aniversário (não pensem num velhinho, pois a vida profissional dele começou antes dos dez anos), depois de um show no qual deu uma canja, Tacilinho me disse que pela primeira vez na vida estava estudando música. De supetão, aprendi que não são anos de estrada que fazem um músico — ou um poeta, ou um artesão, o que seja. Tacilinho, com esse gesto que a mim parece de humildade, mostrou-se também uma pessoa em estado de poesia.

Dois dias de outubro férteis esses dos quais falo, mas não de todo poéticos. A guerra do Iraque continua lá e, não sei se no dia 16 ou no dia 17, tropas iraquianas, auxiliadas pelos americanos, avançaram sobre Mossul com o objetivo de resgatar o território das mãos do Estado Islâmico. Por aqui, uma briga entre facções em presídios de Roraima e Rondônia vitimou umas vinte pessoas. A despeito dos inventores de filosofias rastaqueras e dos leitores apressados de dicionários (ainda que, pensando bem, seria mais sensato definir a guerra como a ausência de paz e a paz como um momento no qual os homens se respeitam uns aos outros, buscam a igualdade entre si e, entre mil outras coisas que poderiam ser listadas, não se atacam), a guerra está lá no Iraque, na Síria, mas também aqui, num campo de batalha espalhado ao longo das calçadas de nossas cidades nem tão grandes, dos emaranhados dos morros e das ruas nas quais ônibus disputam espaço com bicicletas.

No dia 16, havia ido com meu filho mais velho ao jogo do Botafogo contra o Galo. Partida difícil, com erros do juiz favoráveis ao time carioca, que terminou vitorioso. Na volta para casa, ao longo de uma Linha Vermelha sem vestígios de nossos conflitos diários, o trânsito, sem motivo aparente, praticamente parou, com o que pude me distrair da direção, virar a cabeça para a esquerda e ver soberana a lua, a super lua. Aquela bola enorme e brilhante me fez pensar nos homens e nas mulheres que viveram antes de Copérnico. Decerto eles, ao contemplarem uma lua como a que eu via, se entregassem ao encantamento e sob esse efeito ficassem por dois, três dias, talvez mais. É possível, então, que comemorassem os nascimentos e não fizessem guerras, sequer pensassem nelas. Enfim, vivessem dias de paz em estado absoluto e poético e musical e artesanal. Além do mais, imagino, aqueles dias, sob a perspectiva das ciências, obscuros, não eram tão quentes quanto os atuais.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas