Muitos caciques, poucos índios [Rubem Penz]

Posted on 28/10/2016

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Rubem Penz*

O recente falecimento de Carlos Alberto Torres, capitão do escrete canarinho de 1970 na Copa do México, a qual nos sagrou tricampeões, fez-me lembrar de um tema interessante: nossos líderes em campo. Tite, um treinador acima de qualquer suspeita, conseguiu a proeza de tomar uma decisão pior do que a de Dunga, o técnico anterior (e sobre o qual tenho tanta simpatia quanto reservas). Consta ter instituído um rodízio da braçadeira em contraste com a decisão anterior, que era a braçadeira no pior braço possível – o do Neymar Jr., e isso é minha opinião.

Liderança é um assunto fascinante. Assim como a autoridade, ela emana de uma pessoa, porém apenas se concretiza no outro. Ou melhor, o verdadeiro líder não é quem está numa posição de comando, e sim quem as pessoas ao seu redor identificam ser. E não adianta adjetivar, dourar a pílula, enfeitar. Onde começamos a classificar, tipo “liderança técnica”, “liderança moral” e “liderança anímica”, ali pode não existir um líder autêntico. Tomando o exemplo do futebol, a braçadeira nos identifica como sendo o capitão, mas não vem acompanhada dos predicados para que ocupemos o cargo.

Ultimamente, o termo “liderança” anda no foco. Parece que em todos os escritórios de RH há uma gincana instituída para caçar líderes. Está pior do que buscas de Pokemón. As escolas também se preocupam em “formar líderes”, como se o sucesso pessoal e profissional dependesse desta posição. Por resultado, o que vemos é muito cacique para pouco índio. Com isso, um problema: onde só há líderes, não há líder. Como referi, a autoridade existe apenas quando reconhecida pelo outro, e este será, lógico, um liderado. Se eu me submeto e passo a me sentir menos – ou menor ou fracassado –, tal posição não servirá. Assim nasce a imensa crise de autoridade.

A braçadeira de capitão só faz mal a quem não é líder. Ela confundiu a cabeça do Neymar Jr. o tempo inteiro e segue a atrapalhar o time até hoje (destituí-lo se tornou um dilema). E a solução mágica encontrada por Tite foi o tal rodízio, um pecado inverso – muitos líderes, nenhum líder. Carlos Alberto, o “Capita”, liderava diversos gênios (Tostão, Jairzinho, Rivelino…) e um rei (Pelé). A braçadeira lhe caía tão bem como a poucos. Quem sabe Tite, olhando as reportagens sobre seu falecimento, reveja suas posições e identifique no grupo um líder, um capitão. Isso, ou minha suspeita recai sobre a própria autoridade enquanto técnico. Porque isso eu não disse: muito mais do que liderados, líderes se reconhecem a distância.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é publicitário, escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis) e “Enquanto Tempo” (BesouroBox). Desde 2008 ministra oficinas de literárias, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, a qual alcançará dez antologias em 2016. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas