Entre garagens e porões [Daniel Cariello]

Posted on 27/10/2016

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Daniel Cariello*

Quando eu era pequeno, minha mãe perguntou o que eu queria ser quando crescesse. Respondi que queria ser o John Lennon. Mas aí o John Lennon morreu e eu não queria mais. Depois, encontrei um meio-termo entre o meu pueril desejo e a concreta dureza dos fatos e concluí que ainda gostaria de ser o John Lennon, porém, quando ele estava vivo.

Então, fiz como o John Lennon quando ele começou e fui tocar em banda de garagem.

A primeira se chamava Sendero Luminoso e a gente queria explodir a todo custo, algo que acabou ocorrendo no fim do ano, quando todos os integrantes levaram bomba na escola.

Tal intempérie obrigou o grupo a dar um tempo na revolução, voltar-se para o crescimento interior e mudar a alcunha para Nirvana, um nome tão bom e universal que, disseram, nos levaria aos píncaros da glória. Adoramos tanto que corremos para o dicionário para descobrir o significado de píncaros.

Estávamos confiantes na levitação rumo ao sucesso, até surgir um estraga-prazeres.

— Daniel, é melhor trocar esse nome, já existe um Nirvana fazendo muito sucesso lá fora.
— Que nada, nunca vão chegar aqui. Seremos Nirvana até o fim dos tempos!

O fim dos tempos chegou uma semana depois, quando o Nirvana americano invadiu a TV e o rádio com Smells Like Teen Spirit e causou o apocalipse em nossa banda.

Depois do juízo final, juntei-me a outros roqueiros sobreviventes e montamos o Kashmir, influenciado no nome e no som pelo Led Zeppelin. Como nossos ídolos ingleses, o grupo acabou quando o baterista se foi. E essa é a única semelhança de nossas carreiras. Alguns anos mais tarde, formei Os Miseráveis, nome em perfeita conformidade com a qualidade musical do conjunto, que, por isso mesmo, durou só três ensaios e meio.

Com o fim de Os Miseráveis, decidi nunca mais levar uma banda a sério, até pintar um convite para tocar no Phonopop. Então, decidi nunca mais levar uma decisão minha a sério. Com o Phonopop, gravei disco, mudei para o Rio e até toquei na Inglaterra, país do John Lennon. Ali, percebi que havia chegado o mais próximo possível do meu herói de infância e decidi pendurar os instrumentos.

Contudo, antes de minha aposentadoria como músico semiprofissional, toquei na edição 2006 do Porão do Rock, do qual já havia participado três anos antes. O Porão do Rock é um dos mais tradicionais e importantes festivais independentes do Brasil: coloca bandas iniciantes ao lado de outras consagradas e realiza dezenas de seletivas nas cidades do DF, dando palco e plateia a grupos que talvez nunca se apresentassem para um grande público se não tivessem tal oportunidade.

Talvez da edição deste ano saia o novo John Lennon. Ou o novo Renato Russo. Ou talvez não. Mas não importa. Ao menos na vida de uma banda independente, trocar a garagem pelo Porão é uma grande ascensão na carreira. E também pode ser a melhor maneira de encerrar uma, como ocorreu comigo. A não ser, é claro, que me convidem para um novo grupo que vai tomar o mundo de assalto.

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

** O Festival Porão do Rock 2016 acontece esse fim de semana, em Brasília. Se estiver pela cidade, não deixe de conferir se já surgiu um novo Renato Russo.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas