Raymundo Netto, cronista cearense na final do Jabuti

Posted on 26/10/2016

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(Imagem: Tatiana Fortes/O POVO)

Após a divulgação dos finalistas na categoria Conto e Crônica do Prêmio Jabuti de 2016, descobriu-se que nesta edição apenas dois são cronistas. Um deles é o Verissimo, um dos craques do gênero, que inclusive já ganhou o prêmio de melhor livro de ficção do ano – não é nenhuma surpresa que ele seja relacionado a cada novo livro. E o outro… o outro é Raymundo Netto, estreante na premiação.

Natural do Ceará, Raymundo Netto já havia lançado um romance em 2005, mas apenas agora, com “Crônicas absurdas de segunda” (Edições Demócrito Rocha, 2015) é que foi inscrito para participar do Prêmio Jabuti. E, logo na sua primeira participação, conseguiu chegar à final de uma categoria que costuma privilegiar os livros de contos, em oposição aos de crônicas. Diante desse feito a nível nacional, convém que o restante do Brasil o conheça melhor.

RUBEM conversou então com o cronista, que escreve crônicas há quase dez anos para o jornal O POVO, de Fortaleza, sobre o processo de criação do seu livro finalista do Jabuti. Nele, Raymundo encontra diversos escritores em ambientes da capital do Ceará.

cronicasasbsurdas

RUBEM: Gostaria de saber mais sobre o projeto que rendeu o Crônicas Absurdas de Segunda. Você foi convidado a fazer textos sobre Fortaleza, não é?

RN: Sim. Em 2007, fazia dois anos que eu havia lançado Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, meu primeiro livro e romance premiado pela Secult/CE, cuja ambiência se dá no século XX e em que o leitor percebe a cidade como grande protagonista. Quando convidado para revezar-me com Pedro Salgueiro, Jorge Pieiro e Fabiano dos Santos, às segundas-feiras, escrevendo para o caderno Vida & Arte do jornal O POVO, periódico mais antigo em exercício no Ceará, soube que teríamos que, de alguma forma versar nosso texto sobre Fortaleza. Foi o que fizemos, cada um do seu jeito.

RUBEM: E como surgiu essa ideia de promover em suas crônicas encontros seus com outros escritores?

RN: Estava no Centro. Em dias de chuva gosto de fotografar a cidade. Naquele dia, faltava pouco para estrear no espaço do jornal e não sabia ainda o que ou sobre o que escreveria. Sentei-me num banco da praça dos Leões, o mesmo onde senta-se diariamente a estátua de Rachel de Queiroz. Veio-me, num lampejo, a lembrança de que a dona Rachel havia sido cronista até a sua passagem e recordei-me também de sua “Crônica nº 1”, publicada em 1945 na revista O Cruzeiro, na qual ela estava estreando e tinha diversos receios e dúvidas, provavelmente as mesmas que eu teria naquele momento. Daí, em um bate-papo, ela me aconselharia e me confortaria. Foi quando decidi falar a Fortaleza pela voz de seus escritores, principalmente os cronistas.

RUBEM: Imagino que tenha havido muita pesquisa para retratá-los o mais fielmente possível, não é?

RN: E como. No começo, era uma crônica por mês e era esse o tempo, a rigor, que eu teria para desenvolver e finalizar as crônicas. Digo “a rigor”, pois eu comecei a armazenar nas gavetas personagens diversos e não sabia exatamente qual emergiria primeiro. O que eu sabia é que poderia me encontrar com autores mortos ou vivos, mas que o leitor que os desconhecessem, deveria ter essa dúvida: está vivo? Seria uma forma de provocar o interesse, a pesquisa e a leitura dos outros também. Embora nós saibamos que o artista não morre. Não para sempre ou de todo (rs). E para me auxiliar nessa tarefa, a crônica teria que ser “absurda”, a partir de uma narrativa ficcional fantástica, porém, em um ambiente e diante de acontecimentos reais da cidade. Daí ser muito natural, por exemplo, encontrar José de Alencar no ônibus a caminho de Messejana, após a reforma da sua casa, ou bater um papo anedótico com Quintino Cunha no cemitério onde repousa, ou assistir, em meio a irregulares trovoadas e tremores de terra, à peleja final entre o dragão de Sobral e o poeta José Alcides Pinto, entre outros. Claro, o cenário, o “clima” e o tom do texto teriam que emparelhar-se com a personalidade ou estilo do autor escolhido.

“O que eu sabia é que poderia me encontrar com autores mortos ou vivos, mas que o leitor que os desconhecessem deveria ter essa dúvida: está vivo? Seria uma forma de provocar o interesse, a pesquisa e a leitura dos outros também”.

RUBEM: E como você decidia qual escritor encontrar?

RN: Como disse, guardava-os na gaveta, todos eles, feito sardinhas (rs). Sou muito intuitivo, e de repente, poderia ser tomado pela ideia de que era o momento de um ou de outro. O certo é que eu passei a lê-los compulsivamente. Qualquer coisa poderia significar tudo. Uma palavra, uma frase, um detalhe na sua história ou alguma mania retratada, qualquer coisa poderia fazer uma ligação com o nosso tempo, com aquele mês, aquele momento. Eu me agarrava a isso e, tomando a sua voz, seu jeito, seu pensar, eu construía a caricatura do meu personagem. Então, a condução do texto se tornava fluida e menos “sofrida”. O cronista Milton Dias (1919-1983), por exemplo, gostava de escrever cartas e tem um título que se chama Cartas sem Respostas. Aproveitei o título para comemorar meu primeiro aniversário de cronista no jornal em “Crônicas sem Respostas”, na qual recebo uma carta do Milton saudando-me pela data – ele que também escreveu em O POVO – e, a partir de então, ele fala sobre a cidade e o exercício da escrita do gênero. Essa crônica, que deve ter fechado com duas páginas e meia, rendeu, no original, doze páginas – escrevo tudo que posso até esgotar e depois volto para cortar o excesso. Aliás, é uma das mais desejadas virtudes para o escritor: saber cortar ou jogar fora.

RUBEM: Embora tenha personagens conhecidos nacionalmente, há muitos locais, não é? Fale um pouco sobre esse processo.

RN: São muito os personagens desse livro e mesmo alguns ficaram de fora simplesmente porque o caderno mudou de estrutura e o espaço das crônicas foi reduzido. Confesso que o ritmo exigia tanto de mim, que senti-me até aliviado quando aconteceu isso. Lamentei, no entanto, alguns autores que eu gostaria de ter “conhecido” e conversado mais um pouco. Detalhe: em nossa cabeça, acreditamos realmente que tudo aquilo aconteceu. Prefiro crer que sim. Por outro lado, alguns dos autores que se emprestaram para mim, ganhando outra vida nas páginas por mim gerenciadas, hoje não estão mais entre nós, mas puderam ler essas crônicas. Isso não têm preço. Hoje para mim são troféus. Entre eles, Airton Monte (que transformei numa barata), Lustosa da Costa (que passeou pelo Centro com um político assassinado em 1841), Audifax Rios (que desenhou um beco apenas para reencontramos um amigo também cronista), Francisco Carvalho (que virou um poético espantalho em meio a um milharal de papel crepom em festa de São João), Mário Gomes (que seria preso junto a todos loucos maravilhosos de Fortaleza), entre outros.

“Alguns dos autores que se emprestaram para mim, ganhando outra vida nas páginas por mim gerenciadas, hoje não estão mais entre nós, mas puderam ler essas crônicas. Isso não têm preço. Hoje para mim são troféus”.

RUBEM: Você já escrevia crônicas antes disso ou começou com esse projeto?

RN: Minha primeira crônica é “Chuvantiga”, que escrevi de fato para abrir o espaço. Mas não era para ser ela… embora tenha sido publicada depois, em novo momento da coluna. Assim, a primeira crônica publicada foi aquela que também abre o livro – fiz questão de deixá-las em ordem cronológica: “A Moça do Zepelim Prateado”.

RUBEM: Escrever em jornal é sempre uma experiência diferente da literatura propriamente, não é? Como era o retorno que recebia dos leitores com essas crônicas dos escritores?

RN: Sim, é bem diferente em alguns aspectos. A visibilidade é bem ampla e anônima. A minha grande alegria sempre é encontrar pessoas que não conheço a me falar dos textos que às vezes nem eu me lembro. O motivo pelo qual eles foram marcados por esses textos, a identificação, a ludicidade, o encantamento, desconforto ou qualquer outra coisa que os tenha tocado de forma a promover certa singularidade, é um constante mistério. Por isso, fiz questão de dedicar o Crônicas… ao Leitor Desconhecido. As respostas vem, mas também não sabemos quando podem chegar. Na época, divulgava as crônicas por um extenso mailing reunido desde que iniciei na literatura, em 2005, e recebia retorno de leitores de todo tipo e, geralmente, alguns se manifestavam conforme o personagem retratado. Uma vez, um militar, neto do Zé da Luz (1871-1951), um balonista que esteve no Ceará na passagem do século XIX para o século XX, descobriu meu telefone e endereço e passamos a conversar sobre seu avô. Deu-me até um livro de presente, de sua autoria, com a biografia dele. No município de Granja, soube que a crônica que escrevi, cujo personagem era o simbolista Lívio Barreto (1870-1895), na qual ele com sua poética denunciava o abandono da cidade nas mãos da política oligárquica dos dias atuais, chegou a ser afixada na porta da prefeitura e de equipamentos públicos, além de compartilhada em blogues de granjenses. Os personagens, principalmente os mortos, me apresentaram familiares, amigos, pesquisadores que sofriam tacitamente o desmerecido esquecimento daquele que renascia vivíssimo numa crônica absurda de segunda. Foi emocionante ser vetor desse trabalho durante cerca de três a quatro anos.

“Os personagens, principalmente os mortos, me apresentaram familiares, amigos, pesquisadores que sofriam tacitamente o desmerecido esquecimento daquele que renascia vivíssimo numa crônica absurda de segunda”.

RUBEM: Você continua escrevendo para O POVO, não é? Agora há algum tipo de recorte temático ou são crônicas mais gerais? Tem projetos de futuros livros?

RN: Em 2017 completarei 10 anos ininterruptos de Vida & Arte do O POVO. Não há mais recortes temáticos vindos da editoria, mas há projetos literários pessoais. Coisas que eu decido ou não escrever. Ultimamente tenho desviado um pouco desse foco, pois diante de uma situação política conturbada, em um cenário tão temerário, de grande inquietação e indignação, não dá para não se manifestar sobre, mesmo quando acredito que o meu leitor não pensa muito diferente de mim e que talvez eu não alcance aqueles a quem gostaria de lançar uma nesguinha de luz ou mesmo uma cacetada fatal (rs). Uma grande vantagem em escrever em jornais, é que enquanto escrevemos essa “literatura sob pressão”, esse esforço pode rebentar em livros, como aconteceu com o Crônicas Absurdas de Segunda ou mesmo com outro que já tenho preparado, também de crônicas, mais intimista, que, bem provavelmente em 2017, berrará na porta da maternidade. Assim espero.

RUBEM: E qual é a sua relação pessoal com o gênero da crônica? Quem você gosta de ler?

RN: Escrevi no passado um texto denominado “Ensaio para Crônica”, que diz: “No Brasil, podemos afirmar que a crônica está para a literatura, assim como o samba está para música. Afinal, quem não gosta de samba bom sujeito não é; quem não gosta de crônica também não.” Assim penso. A brasileiridade, a liberdade, a diversidade e outras idades que a crônica nos proporciona, tanto para quem a lê como para quem a pratica, é o que a mantém saindo por todas as brechas de parede, mesmo quando tentam abafá-la ou desmerecê-la, não importa, ela deságua e molha os fundos de seus opressores. Certamente, é o mais democrático dos gêneros. Entre as leituras mais longevas às atuais: José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Rachel de Queiroz, Rubem Braga (ai de mim se esquecesse dele… rs), Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Ivan Lessa, Ignácio Loyola Brandão, Paulo Mendes Campos, Airton Monte, Audifax Rios, Ana Miranda, Pedro Salgueiro… Enfim, são tantos e tão bons que nos motivam todos os dias a ler o mundo com seu olhar crônico. O mundo cresce e a literatura também.

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