Televisão de avó [Guilherme Tauil]

Posted on 25/10/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Quem entende do assunto provavelmente vai me achar louco. Um místico disparatado. Mas acontece que aprendi a me relacionar com minha rede de internet. Como se tivesse personalidade própria, consigo identificar alguns sinais nem sempre à mostra. Mais ou menos igual a observar um homem feliz mas adivinhar-lhe um filete de tristeza nas têmporas. Quando minha internet começa a ficar meio indecisa, sem saber que rumo tomar, abro o Twitter. Se demorar, a catástrofe é iminente: a rede vai cair, mesmo que outros sites estejam respondendo normalmente. A solução é dar a ela um respiro. Desplugá-la da tomada. Deixar dar um rolê pelo plano etéreo, onde, imagino, todas as conexões de internet vão se encontrar. Depois do justo descanso para o cafezinho, ela volta à toda, numa boa.

Não conheço nenhuma outra rede de internet cujo termômetro seja o Twitter. A minha aprendeu a agir assim. Talvez esteja imitando a peculiaridade dos organismos, que também se comunicam por caminhos tortuosos. Sei que aí vem febre quando meus ossos começam a estalar mais secamente. Que me perdoe o leitor ortopedista, mas não sou capaz de explicar melhor. É como se me faltasse lubrificação nas juntas. O crêck dá lugar ao créck. Aprendi a valorizar os sinais da minha rede wi-fi tanto quanto os dos meus ossos.

Não é de hoje essa maluquice que a gente tem de se conectar (em mais de um sentido) com a tecnologia. Desde antes, quando a finada AOL distribuía CDs nas caixas de sucrilhos, a televisão da minha avó já era sagrada. Tal qual vaca no pasto da Índia, não se tocava. Nada de mudar de canal. Alterar o volume, jamais. Se mexesse, dava ruim em ambas as antiguidades. Às vezes, quando acontecia de ficar um tempo sozinho em sua casa, com a destreza de quem faz coisas erradas, botava num desenho animado e diminuía os decibéis pela metade. Em seguida, com uma larga margem de tempo, retornava ao canal padrão e ao volume adequado à terceira idade. De nada adiantava não deixar vestígio, porém. Minha avó sempre descobria, porque a tevê começava a chiar, ou mudava a intensidade da cor, ou começava a se comportar de jeito estranho. Era como se estivesse me delatando. De um jeito que também não se explica, aquela caixa de tubo tinha virado a minha avó e vice-versa.

Pouco tempo depois, ganhei um mp3 player capaz de interpretar meu estado de espírito. Eu o escutava todo dia a caminho da escola – e, às vezes, também na sala de aula –, e era impressionante sua capacidade de me presentear com uma canção alegrinha quando eu estivesse meio cabisbaixo. Desconfio que muito pouco de aleatório havia naquela sequência ilógica de músicas. Se acredito ou não em coincidência, depende do dia. Mas toda coincidência é um abraço cósmico. E por isso me sentia ótimo.

Ah, pera aí, não venha torcer a cara agora, como se o assunto não fosse com você. Papo de maluco? Eu bem sei que às vezes você fala com o seu notebook. Já deve ter até dado um tapinha educacional no micro-ondas. Aliás, não tenho dúvida de que, quando ninguém está olhando, você trata o seu iPhone como televisão de avó.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas