Se você soubesse [Cássio Zanatta]

Posted on 24/10/2016

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Cássio Zanatta*

Se você soubesse o orgulho que me dá o que em outros causaria vergonha. Orgulho besta desse fascínio e falta de jeito com as mulheres, de às vezes travar sem reação,  incapaz de dizer alguma coisa diante de um encontro inesperado de tão esperado.

Orgulho de não saber dançar e ser conduzido pela mulher e filha bailarinas, e não fazer feio (na opinião delas, que é a que conta).

Orgulho de ter respirado o mesmo ar de Caymmi, Tom, Vinicius, Bandeira, Drummond, Rubem e da vó Guiomar. De ter puxado o pai e gostar de dormir 20 minutinhos depois do almoço – 40, se houver vinho. E dormir de sonhar, só com coisa boa, de fazer babar.

Orgulho de preferir ir ao cinema fora de hora e repetir a sessão, mesmo quando o filme não é para tanto. De rever uma cena décadas depois e ser tomado pelo mesmo sentimento. Vergonha de gente que conversa na exibição como se estivesse na sala de casa.

Orgulho dessas unhas que crescem depressa para chegar primeiro que a sandália. De me excitar quando isso é constrangedor. De me engasgar no almoço importante. De rir nas horas erradas. Orgulho dessa falta mesmo de orgulho. Orgulho até de ser celíaco, vê se pode.

De ficar na dúvida entre viajar para o Rio, Paris ou Tiradentes. E, de repente, preferir Tiradentes.

De comer sushi com o filho e reparar que ele é muito mais habilidoso com os palitos, não mancha a camisa de shoyo e ainda por cima me apresenta as novas bandas. De assistir na TV, pela décima-segunda vez, ao filme preferido da filha, os dois deitados no chão, dividindo a almofada.

Orgulho de gostar de torresmo, ostra, fígado, farofa e de gostar de ficar sozinho, de caminhar horas e horas prestando atenção ao que não mereceria atenção, de começar uma crônica sem saber como vai acabar e ver que não ficou de todo ruim.

E a vergonha que meus filhos sentem de meu assobio em público, a mesma que eu sentia quando meu pai cantava alto no ônibus.

Imenso orgulho de ainda conversar com Beatriz na varanda, no fim de noite, de falar sobre o dia e os medos, ouvindo o silêncio e falando baixo para não acordar os filhos.

Dos amigos, orgulho imenso – o que mais tem durado nessa vida.

Orgulho de ter nascido numa cidade pequena e de poder fazer o tempo voltar toda vez que volto para lá. De não ser nem triste de pobre nem podre de rico, nem feio nem bonito, nem lorde nem tosco, nem gordo nem magro, nem gênio nem anta.

A palavra é mesmo orgulho, ou será outra?

Mas orgulho, orgulho mesmo, é de olhar para trás e achar graça nos tropeços, exagero no desespero que passou, lembrar as coisas mais bestas de quando tinha 11 anos. E de olhar pra a frente com um determinado, burro e injustificável otimismo.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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