Os dias secretos de Mondrian [Mariana Ianelli]

Posted on 22/10/2016

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Mariana Ianelli*

Um assunto de poeta há pouco mais de um par de décadas: as flores de Mondrian. Porque Mondrian pintava flores. Pintava muitas outras coisas antes de encerrar-se naquelas células coloridas obsessivamente arquitetadas. Paisagens abertas, fazendas, moinhos, marinhas, torres de igreja, árvores. Flores, foram mais de cem. Crisântemos, lírios, girassóis, dálias, gladíolos, margaridas, copos de leite, rosas. Uma ou duas flores a cada desenho. Em aquarela, a carvão, a óleo. Destacadas da natureza, desabrochando, frescas, ou pendendo meio murchas e desfolhadas.

Há quem fale na minúcia botânica do artista. Em símbolos do corpo e de sua interioridade. Em relações com a teosofia. Para o poeta David Shapiro, essas flores são os verdadeiros nus da obra de Mondrian, sua “autobiografia espiritual”, um segredo sem data que deixa rastro em diferentes momentos da vida do pintor como uma espécie de meditação contínua. Girassóis morrendo, irmãos dos de Van Gogh. Símbolos do tempo.

Flores de um Mondrian de meios tons que o Mondrian severo e racionalíssimo dos últimos anos escondeu sob cores primárias. Flores que não conheceram o mundo da indústria cultural, da moda, do design. Que foram desprezadas pelo próprio artista como comerciais. E desprezadas pelos críticos, que fizeram eco à anedota de que Mondrian dava as costas para as árvores por achá-las detestáveis. Flores desprezadas por não se encaixarem no contexto do abstracionismo da época. Por serem um tabu de sabor onírico, de deliquescência erótica, uma rosa lilás num copo, duas rosas azuis sobre um fundo amarelo, três vezes três cálices vermelhos de amarílis num vaso.

Uma exposição nos Estados Unidos, em 1991, as reuniu como numa antologia dos dias secretos de Mondrian. Cada dia, uma flor de acontecimento efêmero e total. Há quem fale em liberdade contra dogmas. Numa fresta de delicadezas líquidas por onde uma alma foge da impessoalidade. Há ainda quem fale em sublimação. Os que se lembram da tulipa artificial no asséptico ateliê do artista, uma tulipa fantasmagórica, inteira pintada de branco. Os que fazem a leitura psicanalítica de uma renúncia sexual. E, de repente, esse improvável diário de pétalas vai se tornando, para quem o vê, a descoberta de um tesouro de prazeres sem fama, um gozo de olhos vivendo para si o despontar de um crisântemo, a glória de dois lírios japoneses, a pequena – mas dramática, quando ampliada a meio metro – morte de um girassol.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas