Ela acordou W3 [Daniel Cariello]

Posted on 20/10/2016

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Daniel Cariello*

(Atenção: a crônica a seguir contém doses elevadas de Brasília).

– Bom dia, doutor.
– Bom dia. O que a traz aqui?
– Hoje eu acordei totalmente W3!
– Não me diga… Como isso começou?
– Não sei bem. Ontem, depois da segunda pinga de pequi, comecei a me sentir meio tesourinha. Aí, quando me olhei no espelho de manhã, notei que estava assim, W3.
– Você está se sentindo mais W3 Sul ou Norte?
– E tem isso?
– Tem, claro. É comum pacientes reclamarem de uma sensação de W3 Sul, um sentimento de se tornarem desimportantes depois de terem vivido uma época de glória.
– Talvez eu esteja mais W3 Norte, então. Tô me sentindo como alguém que tinha um grande vazio que foi preenchido desorganizadamente.
– Era disso que eu tinha medo!
– Por quê, doutor?
– Casos de W3 Sul são mais facilmente tratados. Uma volta de Grande Circular às 18 horas geralmente resolve. O sentimento de abandono desaparece completamente.
– Sério?
– É batata! O único efeito colateral possível é a síndrome de W3 Sul ser substituída por uma de Sudoeste Econômico, uma sensação horrível de aperto. Mas essa é temporária: basta descer do ônibus que passa.
– Mas então o meu caso de W3 Norte é grave, doutor?
– Não sei dizer. É um fenômeno relativamente novo. Tive poucos pacientes com esse diagnóstico.
– Você pode me ajudar? Por favor!
– Podemos tentar um tratamento alternativo. Há alguns meses, recebemos aqui um rapaz com os mesmos sintomas e receitamos uma grande dose de Conjunto Nacional. Nada como combater o caos com mais caos.
– Deu certo?
– Não sabemos, parece que ele se perdeu no shopping e não conseguiu mais encontrar a saída. Olhando pelo lado bom, não voltou para reclamar! Mas não se preocupe, vamos utilizar outra técnica com você. Só não posso garantir que vá funcionar.
– Topo qualquer coisa para me livrar disso.

Uma semana depois, ela retorna ao consultório.

– Que bom vê-la novamente! Seguiu o tratamento?
– Segui.
– Ficou uns dias em casa, quieta, sem contato com o mundo, só escutando Legião Urbana acústico e Renato Russo em italiano?
– Fiquei.
– Ainda está W3?
– Não.
– Eu sabia!!! Como se sente agora?
– Depois desse claustro? Agora me sinto Noroeste: totalmente vazia, subitamente desvalorizada, completamente empoeirada. Você precisa me ajudar, doutor!
– Ai, meu Dom Bosco…

 

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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