Quantas calças jeans você tem? [Elyandria Silva]

Posted on 18/10/2016

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Elyandria Silva*

Chegamos nesse mundo nus e sozinhos. Iremos embora desse mesmo mundo sozinhos, talvez nus, vai depender das circunstâncias. Também não levaremos as tralhas que acumulamos durante uma vida toda, não levaremos nossas melhores camisas, bolsas, sapatos, maquiagem, eletrônicos, coleção disso ou daquilo, vinhos, casacos de cashmere importada, nada. Adoraria levar meu Ipad e meu Notebook. Se nada nos será permitido carregar na derradeira hora da partida por que não podemos viver aqui, enquanto estivermos, com o necessário? De vez em quando faço a pergunta a alguém o que faria se, de repente, num colapso financeiro, perdesse tudo o que tem e ficasse sem nada, absolutamente nada, sem roupas, dinheiro e tudo o mais? Gosto de questionar isso, sempre faço a mesma pergunta a mim mesma. Ela me arremessa com força no vale da vulnerabilidade, me faz lembrar que valho o que sou e não o que tenho. Ela me dá uma paz, uma tranquilidade estranha e certeira, mas acima de tudo me alimenta de uma certeza: se o mundo acabasse e acordássemos sem nada, nos escombros, seríamos todos iguais.

Cada vez mais grupos de pessoas aderem a um estilo de vida Minimalista, isto é, viver com o essencial. É impossível e, ao mesmo tempo insustentável que milhões de pessoas pelo mundo consumam, acumulem e carreguem grande quantidade de objetos vida afora. Um dia o consumismo vai ter que diminuir ou acabar. Um dia seremos obrigados a viver com menos pela própria sobrevivência. Nem todos viverão o suficiente para assistir a esse dia chegar, mas vai acontecer, o capitalismo exacerbado vai ter um fim.

Tudo de material que hoje precisamos para viver é importante. O problema é quando ele se torna um aparador indispensável para os descontroles emocionais – compulsão ou impulso de comprar o que não precisa para compensar problemas psicológicos – ou quando não se tem mais tempo para nada porque tem de administrar ou cuidar de tudo o que comprou. Estudos de dois pesquisadores americanos, Tim Kasser e Aaron Ahuvia, comprovam que pessoas consumistas são mais ansiosas, infelizes e antissociais.

O filósofo Diógenes, indignado e contra os luxos da civilização, foi viver em um barril. A alemã Heidemarie, chocada com a pobreza das favelas após visitar o Brasil, decidiu vender tudo e viver sem dinheiro. Fez isso por 15 anos e vive até hoje sem dinheiro, foi descoberta pela BBC, virou tema de documentário, escreveu livro, ficou famosa e doa sua aposentadoria para a caridade. Seus pertences cabem numa pequena mala.

Não precisamos chegar a esses extremos, mas podemos começar contando quantos objetos temos: móveis, sapatos, calças jeans, camisetas, cd’s, livros. Usamos tudo? Se dermos vai fazer falta? Ter pouco, viver bem e feliz tem como melhor recompensa a liberdade e tempo para fazer coisas diferentes, tempo para desempenhar nosso melhor papel, seja ele qual for.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas