Boris Fausto e as memórias intrusas [Alexandre Brandão]

Posted on 16/10/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

“O brilho do bronze — Um diário”, do historiador Boris Fausto (Cosac Naify), presente de minha amiga Nilma Lacerda, foi escrito a partir da morte da esposa do octogenário professor da USP e contempla os anos entre 2010 e 2014. Há muito a dizer depois de ler esse livro, desde especular como são os valores de um intelectual uspiano das antigas até louvar a forma como um senhor encara com bravura o luto e a solidão. Esse senhor, diga-se de passagem, além de comentar as visitas ao cemitério, o enfrentamento do cotidiano sem a parceira de anos, analisa, entre outras coisas, a política, em especial as manifestações de 2013. Tudo num tom, digamos, alto, de um intelectual de boa formação, cuja vida foi marcada pela perda precoce da mãe.

Sinto-me atraído pelos momentos comezinhos narrados ao longo do livro, como quando Fausto fala de suas lembranças sem importância. Conta, por exemplo, de um diálogo — por ter a ver com Lins, cidade dos Pratas, me fez pensar no Leonel Prata — que certa vez ele escutou entre dois italianos. Estavam todos na entrada do cinema, na São Paulo dos anos de 1950 (talvez tenha sido um pouco antes, a julgar por uma breve pesquisa que fiz), e os italianos discutiam futebol, mais precisamente a partida que haveria entre dois times do interior, a Linense e o XV de Piracicaba, cujo resultado daria ao vencedor um lugar na primeira divisão do futebol paulista[1]. Um disse, tropeçando na língua, que torcia pelo “Lincense”, no que o outro, um pouco espantado, quis saber a razão. O diálogo entre eles, no registro do autor do diário, foi o seguinte:

“— Perché? — indagou o que fizera a pergunta.

 — Perché a me non mi piace Piracicaba.”

Até onde eu saiba, Fausto não tem ligação nem com Lins nem com Piracicaba, portanto essa história foi fixada em sua memória por puro capricho de seus neurônios. Apostando que cada um de nós cultiva pelo menos uma dessas memórias intrusas, que o professor prefere chamar de insignificantes, mal terminada a leitura, saí à caça da(s) minha(s).

Encontrei de cara algumas bem miúdas, mas, ao contrário da narrada por Fausto, guardadas ou mal guardadas no espaço do afeto, ou seja, lembranças que acusavam o meu envolvimento direto com os fatos. Uma vez, em Passos, no Bar do Vicente, que ficava ao lado do Grande Hotel, ao perguntar se eu aceitava uma bebida e eu dizer que queria uma sodinha (o nome que se dava à Soda Limonada da Antártica), meu padrinho indagou se eu havia parado de beber — insinuando que me oferecera uma bebida alcóolica. Eu tinha menos de dez anos, registre-se. Nos meus primeiros meses de Rio de Janeiro, o atendente de uma loja quis saber qual era minha graça — meu nome, esclareceu, diante de minha hesitação. Enfim, histórias irrelevantes, embora marcadas pela presença amorosa de meu padrinho e por minha chegada à cidade na qual acabaria fazendo minha vida. Não servem como paralelo à narrada no livro. Busco outra.

Era algum ano anterior a 1977, eu vivia em Passos. Eram dias de eleição, talvez fosse mesmo o dia da eleição, e eu não votava ainda. Na Praça da Matriz, um pouco fora de seu centro, vi um monte de gente aglomerada. Por achar o movimento estranho, fixei meu olhar no grupo. Um senhor — logo o reconheci, era o empresário mais bem-sucedido da cidade naquela época — atirava dinheiro pro ar. Os que estavam um pouco afastados dele, feito corvos atacando a carcaça de um boi, se jogaram sobre as notas, disputando-as à tapa, puxões de cabelo e unhadas, coisas que os corvos não costumam fazer.

À medida que escrevia o parágrafo anterior, fui percebendo que minha história não se compara à de Fausto. A dele não o atinge de frente, a minha, ao contrário, por ter desnudado aos olhos de um adolescente como são alguns políticos ou a política, ainda reverbera na minha visão de mundo. Naquele episódio entendi a forma como a elite tratava — e continua tratando, basta ver, na imprensa carioca, as várias notícias de compra de votos, agora, em 2016 — os menos esclarecidos e/ou os mais necessitados.

Não desisto de encontrar uma história que eu tenha presenciado e guardado sem outro motivo que não o de usá-la como uma anedota a ser dividida entre amigos. Opa, uma salta na tela da minha memória. Ainda em Passos, num começo de noite, eu atravessava a rua para entrar no clube e vi, encostado ao lado da porta pela qual eu passaria, Z., meu professor no ginásio. Entre nós passou alguém, não me recordo quem, e perguntou ao mestre: “Cumé que cê tá?” Um jovem de 25 anos, se tanto, Z. respondeu: “Doido”. Ambos riram, e eu entrei no clube sem atinar para o significado daquele papo. Não demorou muito, destrinchei o código e comecei a achar a história engraçada. Continuo achando, e não passa disso.

[1] Em 1948, segundo o site do Linense, o time de Lins não subiu para a primeira divisão ao perder por cinco a um do XV de Piracicaba.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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