Bons ventos [Rubem Penz]

Posted on 14/10/2016

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Rubem Penz*

Eis que Robert Allen Zimmerman, estadunidense nascido no Minnesota em 1941, ganha o Prêmio Nobel de Literatura 2016. Eis que isso se torna imediato motivo de polêmica, pois postulantes qualificadíssimos ao nobre laurel se espalham por todo o mundo das letras, e há sempre injustiças sobre a escolha de um só dentre diversos merecedores. Eis que noto o maior estranhamento nem recair sobre a relevância histórica e qualidade da obra em si, e sim sobre o suporte onde suas palavras repousam: a música. Eis Bob Dylan, uma resposta a soprar nos ventos suecos. Ouso alguns comentários.

A biografia de Rubem Braga traz uma informação interessante: sua antipatia por Tom Jobim, supostamente, teria sido alimentada por ele ter afastado Vinícius de Moraes dos sonetos para “escrever musiquinhas” (há mais motivos). Hoje, o que pensaria nosso representante maior do gênero crônica (ao qual, segundo Antonio Cândido, jamais se pensaria atribuir um Nobel), vendo “musiquinhas” ascenderem à impensada glória? Possivelmente engrossaria o coro dos descontentes, com o perdão da imagem (som?) de trocadilho.

Por outro lado, o grupo de professores de literatura que escolheu o álbum “Tropicália” para compor as leituras obrigatórias dos recentes vestibulares da UFRGS tem motivos de sobra para exultar. Ao reconhecerem nas letras, melodias e modos dos tropicalistas um mérito literário poderosamente disseminado, já estariam avisados da boa nova? Ah, estas minhas plagas, tão aguerridas nas tradições, tão afeitas aos paradoxos… Quem sabe tal vento sueco seja o nosso conhecido Minuano, ar pampiano e gelado que a tantos desassossega quando assobia nas frestas da alma.

O fato é que, nascido no embalo do samba e acompanhado pela música a vida inteira, sinto no âmago o enorme preconceito do povo dos livros diante das letras musicais. De forma malandra, buscam exemplos mais identificados como entretenimento (jamais como arte) para desmerecer todo o conjunto da criação cantada (como se não houvesse pobreza evidente na literatura comercial). Esquecem que harmonia e melodia compõem o mais exigente suporte sobre o qual pode repousar a palavra. O único que, além da métrica e da prosódia, impõe ao compositor diversas intensões pré-estabelecidas – algo como se a folha de papel limitasse a escolhas das palavras.

Já estive dos dois lados do balcão: fui julgado e julguei méritos artísticos. Conheço as agruras de toda seleção, a dor de ser preterido e o sofrimento ainda maior que acompanha a responsabilidade de escolher um em detrimento de outro. É dificílima a posição da Academia. Contudo, pela ousadia assumida, assopro meus humildes parabéns.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é publicitário, escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis) e “Enquanto Tempo” (BesouroBox). Desde 2008 ministra oficinas de literárias, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, a qual alcançará dez antologias em 2016. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas