Gato na árvore [Marco Antonio Martire]

Posted on 12/10/2016

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(Imagem: Bendita Luz)

Marco Antonio Martire*

“Gato na chuva” é o nome de um conto matador de Hemingway.

Lembrei dele porque recentemente, enquanto gastava a promissora noite de sexta-feira degustando um chope, identifiquei o felino — ágil feito ele só — descendo pelo tronco de uma árvore sinuosa, enraizada na beira da praça. O gato era de bom tamanho, tinha uma pelagem curta e preta, o branco em poucas partes, de modo que fiquei surpreso por tê-lo descoberto na árvore, oculto no breu da folhagem.

Estava na certa caçando. Mas caçando o quê? Do que se alimenta um gato livre na vastidão de uma praça? Os pombos ninguém esquece de alimentar, mas os gatos vadios… esses para sobreviver precisam da musculatura em dia, sua liberdade de acasos impõe.

Nós em casa nunca tivemos gatos. Tivemos passarinhos, o que hoje rejeito de todo coração, lugar de passarinho nunca será em uma gaiola. Gatos não tivemos. Houve tempo em que flertei com uma possível adoção, pensava em criar um gato, e decidi que seria preto. Os pobres gatos pretos levam a culpa dos males da humanidade. O povo por aí mata os bichinhos.

Teria por nome Spock, nome do sabe-tudo alienígena da franquia de cinema “Jornada nas estrelas”. Mas as coisas não aconteceram como eu previa e adotamos um cãozinho. Preto e branco, vira-lata, herdeiro talvez de um ou uma border collie. Chamamos o nosso novo amigo de Ryker, o imediato do capitão Picard em “Nova geração”.

Este ano acolhemos em casa uma nova vira-lata, a bela e carinhosa Ninna, nascida em 15 de novembro. A adoção de um gato parece ideia que não se realizará. É muita gente na nossa casinha e eu sou um sujeito danado de espaçoso.

Mas voltando ao célebre conto de Ernest Hemingway, o argumento é simples, como quase todas as histórias do mestre: sua protagonista, ao perceber um gato na chuva, põe na cabeça que quer e precisa de um gato para chamar de seu. O conto de poucas linhas está disponível na rede, fácil de achar.

 O meu gato não via chuva, era uma noite seca, estava é na árvore mesmo. Da minha posição pude perceber os movimentos precisos e o silêncio de predador. Procurei por sua presa, mas meus olhos não bastaram. Contentei-me em acompanhar o avanço do gato descendo pelo tronco da árvore. Imaginei suas garras firmes no trabalho de mantê-lo sempre vivo. Sua inteligência de felino preparada para as contingências da vida.

Um homem corpulento então me abordou oferecendo um enorme e reluzente relógio. Agradeci a oferta, mas não havia gostado da jóia. Voltei a procurar pelo gato. Sumiu da árvore, sumiu da minha vista. Eu pensei cá comigo: agora só na internet ou na tevê.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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