68 + 1 [Daniel Cariello]

Posted on 06/10/2016

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Daniel Cariello*

Domingo acontece o segundo turno das eleições presidenciais na França. Ségolène Royal é a candidata da esquerda. Nicolas Sarkozy é o da direita. Ela, meio insossa. Ele, um projeto de ditador.

A verdade é que ninguém parece muito empolgado com a Ségo, como ela é chamada aqui, mas a possibilidade de vitória de Sarkozy fez as pessoas irem às ruas. Eu fui também.

Havia duas semanas que estava em Paris e o processo eleitoral começava a esquentar. Recebi um panfleto de uma passeata anti-Sarkô, organizada por um grupo chamado Act Up Paris. Não li tudo, mas o motivo já me animava. Estava louco para viver os resquícios de maio de 68.

Cheguei ao local marcado um pouco antes da hora. Havia algumas centenas de pessoas e uma grande faixa escrita “Des fleurs, des paillettes, Sarkozy à la retraite”. Algo como “Flores e purpurinas, aposentadoria à Sarkozy”. Não gostei do slogan. O que tinha a ver flores e purpurinas com as eleições?

Enquanto isso, a praça ia enchendo. Os organizadores se cumprimentavam com bitocas na boca. Depois pegavam o megafone e davam gritos histéricos, rapidamente correspondidos, com entusiasmo, pelos presentes.

Achei aquilo um pouco estranho. “Mas é o jeito deles. São os filhos de 68, afinal”, pensei.

A verdade é que estava fascinado por participar de um ato político em Paris. Imaginei que fôssemos caminhar triunfalmente até o Champs-Elysées, como De Gaulle fez quando a França foi retomada após a derrota dos alemães na II Guerra Mundial.

Meu pensamento estava longe, longe. Acordei quando apareceu uma flor na frente do meu nariz. Demorei um pouco para entender que era para mim.

– C’est pour toi.

– Merci beaucoup. C’est gentil. – E abri o maior dos sorrisos, olhar fixo na flor, sem ver quem oferecia.

– De rien… – Disse a voz masculina. Então percebi que quem a segurava era uma figura que mesclava um militante do MR-8 com o Clóvis Bornay e que dava uma piscadinha de canto de olho pra mim.

Meu cérebro começou rapidamente a fazer as conexões e logo chegou à obvia conclusão: eu estava em uma passeata gay! Só nesse momento notei as bandeiras lilases, os homens de mãos dadas, a purpurina voando e a farta distribuição de rosas.

Continuei por ali e mostrei minha indignação contra Sarkozy, aplaudindo tudo o que eles falavam, apesar de não entender a metade, porém, vi que não iríamos marchar pelas ruas. Fiquei um pouco frustrado. Pra quem foi esperando ver 68, o máximo que conseguiria seria um 69.

Pelo menos cheguei em casa cheio de flores.

 

* Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas