Renda-se ou morra [Elyandria Silva]

Posted on 04/10/2016

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Elyandria Silva*

Não bebo.

Não fumo.

Não gosto de cerveja.

Não como carne.

Prefiro o silêncio à badalação.

Não gosto de praia entre 10 e 16h.

Lá no alto o astro rei nos observa. Sombra e água fresca. Sombra, quente de fritar os miolos, mas era sombra. Água fresca, que se não bebesse rápido logo virava água para fazer chá, mas era água fresca. O calor me consome aos goles, chego cansada na praia, disposta a aproveitar o que todos chamam de “férias”. Caminho firme em direção ao outro lado da rua com a cadeira e o guarda-sol que, na verdade, não consegue mais guardá-lo em tempos sinistros de aquecimento global. O sol, se é que algum dia isso aconteceu, não pode mais ser guardado porque nos mastiga como siris tostados. A sensação térmica é que Lucifer decidiu se mudar, de mala e cuia, para o litoral catarinense trazendo o inferno para ficar. Até 2100 ficará 6° mais quente em todo o mundo, diz o artigo do jornal. Fico tranquila, não estarei mais aqui. Finalmente me sento na cadeira grudenta, já estou toda engordurada, digo, cheia de protetor solar.

Passa das 15h. Além de tudo tem a culpa de que era cedo para estar na praia, mesmo assim ali estava. Decido relaxar olhando o mar. O rolezinho é intenso, vai e vem de pequenos grupos, pares, trios e casais agregam valor à orla e à propaganda do pirata para passeios no Navio Pirata. Piratas de verdade perderiam para alguns restaurantes e quiosques que saqueiam os pobres clientes, só falta colocar a bandeira na entrada “Renda-se ou morra”. Sempre nos rendemos à fome, um dia morreremos por isso.

Quando você pensa que foi injusta em julgar mal o programa começa a tocar funk e sertanejo universitário, no último volume, bem perto, com direito a caixa de som, microfone, dança, cerveja e gritos. Teria que ser uma coisa só, tudo junto era demais. Teria que ser apenas o funk ou apenas o sertanejo, quem sabe. Na mesma hora muitas bundas se proliferam à frente, ao lado, se mexem, caminham, balançam. Bundas sem celulite não existem mais, é coisa de um passado muito distante, tão distante que ninguém mais lembra que existiu. Coisa de capa de revista, ilusão. Barrigas saradas também são raras. Que diferença isso faz? Nenhuma. São apenas pequenas observações de quem vê o invisível e o pouco interessante à grande massa. A ditadura da beleza que se dane, também tenho celulite.

A pele era tão branca que as veias apareciam. A adolescente, poucos metros à frente, com uma toalha na cabeça, virava para lá e para cá na cadeira espirrando um líquido gosmento no corpo. Podia sentir o cheiro de seu sonho impossível: ser uma garota bronzeada em algumas horas. Pobre menina, pensei, tentando imaginar em como ela estaria no dia seguinte.

“Volte para seus livros”, me disseram. Voltei. É sempre reconfortante voltar para uma paixão. No penúltimo dia comprei um milho, dei uma nota de R$ 100,00, não tinha troco, fiquei devendo R$ 2,00.

Tudo muito cômico e engraçadinho se não fosse grave a questão que nos assola. Além do calor excessivo, que castiga todos os dias os que precisam ganhar a vida vendendo na praia, tem ainda o desmoronamento ambiental que nos torna seres microscópicos que assistem impotentes a destruição do planeta. Ontem, lendo, lembrei-me da mulher do milho. Terei que voltar, nem que seja para pagar os R$ 2,00.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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