O fecho do feixe [Daniel Russell Ribas]

Posted on 03/10/2016

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Daniel Russell Ribas*

There’s a lover in the story, but the story’s still the same / There’s a lullaby for suffering and a paradox to blame / But it’s written in the scriptures and it’s not some idle claim / You want it darker / We kill the flame – Leonard Cohen (“You want it darker”)

Ontem fiquei doente. No cinzento domingão da eleição, fiquei me contorcendo na cama, somente com um breve intervalo para votar. O motivo, no entanto, estava longe de ser ideológico. Na noite anterior, após uma bebedeira com um amigo a que não via há tempos, comi algo que não desceu bem. A conclusão desta mistura de elementos, álcool e alimentação ruim, foi uma longa e dolorosa ressaca. Voltando à política, relembro minha agonia física e surge-me à mente o seguinte questionamento: em matéria de representatividade, o que o brasileiro vem consumindo? O que temos digerido seria fruto de um processo às pressas e atraente na superfície, ou um cozido mais perverso, como aqueles que escolhem o veneno para temperar sua fatal refeição?

Li há pouco um interessantíssimo comentário do tradutor e poeta Guilherme Gontijo Flores, autor dos belíssimos e mordazes livros “Brasa enganosa” e “L’azurblasé”. Ele elenca exemplos de situações típicas de novela, como José Mayer e Vera Fischer divididos em suas agonias de membros da elite, alienados sem culpa do mundo em míseras preocupações sexuais. Prosseguem mais duas cenas de teledramaturgia, em que personagens negros e LGBT são tolerados na condição de figuras arquetípicas, em um pastiche sórdido que justificaria uma incapacidade de ascensão social. Finaliza com uma descrição bem real de eleitores abastados vibrando com a vitória de colegas do country ganhando prefeituras em capitais estaduais. “Nossa narrativa é toda aristotélica: sofremos a tragédia dos ricos e rimos dos pobres que nós mesmos somos. Na hora de votar, como povo, escolhemos a figura com que nos identificamos”, afirma o escritor.

Torna-se uma reflexão mais intrigante perante os eventos que cercearam o país nos últimos anos. Concorde-se ou não com suas motivações, as alterações no cenário político criaram uma impressão de tábula rasa. O próximo passo está para ser escrito e é imprevisível. Será? O sistema seria um mecanismo que trava, mas, eventualmente, retoma seu funcionamento e engole aquilo que o engasgou como uma planta carnívora? Ou, como integrados, sua operação pode alterada por dentro? Nesta dicotomia, as duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, simbolizam que não há resposta fácil. A culpa é da hubris dos deuses ou da ousadia dos mortais? Em todo caso, estaremos condenados a um destino predeterminado ou poderemos sair da caverna para além das sombras?

As eleições paulistana e carioca demonstram a rejeição aos governos anteriores. Mas este é o efeito, o fim de uma tragicomédia talvez anunciada. Enquanto um município fez uma opção clara pelo conservadorismo, outro encontra-se dividido pela indefinição de qual modelo seguirá, desde que não fosse o anterior. É infeliz constatar isso, mas, em um país em um a cada três de seus habitantes culpa a mulher em caso de estupro, não foi a conduta agressiva que tirou o candidato oficial da jogada. Vale mencionar que o vereador mais votado na cidade maravilhosa é membro de uma família ligada à extrema-direita. Seu pai, que todos sabem quem é, alcançou o mesmo resultado há dois anos quando se elegeu deputado federal. Logo, Rio de Janeiro progressista? Menos, queridos. Bem menos…

Como Leonard Cohen profetiza em sua voz cavernosa, há uma canção de ninar para o sofrimento e um paradoxo a ser responsabilizado. A história é a mesma. Os personagens farão aquilo que esperamos deles, enquanto dermos a audiência. Não é somente a mídia que produz monstros. Apenas exteriorizam e trabalham estes sentimentos presentes dentro de nós num pacote atraente, previsível e brega. Champanhe com gosto de guaraná aguado, enfim. Parece bom à vista, mas causa um piriri… À medida que analisarmos aquilo pelo que desejamos ser, e não por que é, veremos tudo escuro e nossos estômagos se contorceram. Abrir os olhos dói, como aceitar sua própria tragédia. Se o prato enjoou, não basta esperar uma nova receita. Você é o que come. É preciso arregaçar as mangas e fazer você mesmo, supervisionar o preparo, garantir a qualidade do que pediu. É menos utópico que muita dieta. Palavra de quem perdeu 15 kg nos últimos meses.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas