Tagarelice à francesa [Daniel Cariello]

Posted on 29/09/2016

2



Daniel Cariello*

Conheci a Edith de uma maneira pouco usual.

Moro no sexto e estava na sacada pintando uma das pernas da mesa, ainda desmontada, que tinha acabado de comprar na infernal Ikea. Movimento brusco, o pedaço de madeira soltou-se no espaço e despencou lá de cima. Menos mal que no primeiro andar, onde ela vive, as varandas são enormes e com grandes jardins.

Como era noite, não dava para ver bem onde tinha caído. No dia seguinte, bati à porta. Abriu uma simpática e sorridente senhora, cabelo pintado de vermelho, 60 e poucos anos.

– Bonjour madame.
– Bonjour.
– Moro no sexto andar e deixei cair um pé de mesa ontem. Acho que está no seu jardim.
– Ah bon?

Aí ela me convidou para entrar e não me deixou mais abrir a boca. Desembestou. Falou por longos minutos. Sem respirar, aposto. Fomos procurar a madeira na varanda, ela falando. Achamos, ela falando. Entramos de volta, ela falando. Mostrou-me a casa, ela falando.

E falava. Do perigo que foi eu ter derrubado aquilo, pois podia cair na cabeça de alguém. Da sorte de a peça não ter se quebrado. Do tanto de lixo que os vizinhos jogam pela janela e que acabam no seu jardim. Do ano de construção do edifício. Eu, mudo.

Tomou um gole d’água. Era a brecha que eu precisava.

– Merci pour tout madame. Tenho que ir.
– Já?
– Já!
– C’est dommage…
– Oui. Mas obrigado. – Disse em português, pra ser simpático.

Foi um erro. Sua mão, que já estava na maçaneta, recuou.

Perguntou de onde eu era. “Brésilien?”. Arregalou os olhos e iniciou outro monólogo, enquanto me mostrava as reformas que estava fazendo em casa.

– Tenho muitos amigos no Brasil.
– Esse banheiro foi todo quebrado pra construir um novinho.
– Adoro o café de lá.
– E a música.
– E a comida.
– Aqui na sala eu vou trocar o piso.
– Já tomei Guaraná Antártica.
– Minha avó era brasileira.
– Quero conhecer São Paulo.
– A cozinha tá cheia de poeira.
– Acho Copacabana linda pela televisão.
– Pena que eu não fale português.

Pena nada, pensei, enquanto a metralhadora verbal atirava sem dó. Vinte e três mil palavras depois, consegui a segunda trégua.

– Madame, merci. Mas preciso vazar agora mesmo.
– Quer mais alguma coisa, mais água?
– Não, obrigado. A propósito, je m’appelle Daniel.
– Ah, prazer. Je m’appelle Edith.
– Obrigado. – Ela disse em português, invertendo quem devia agradecer. Pensei em corrigir, mas acho que mostrava gratidão por ter alugado meus ouvidos.

– De nada. À bientôt.

Na outra semana vi Edith na feira perto de casa. Achei mais seguro acenar de longe.

* Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

__________

Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

Anúncios
Posted in: Crônicas