Isso é de comer? [Guilherme Tauil]

Posted on 27/09/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Não entendi nada na primeira vez que vi alguém entrar numa doceria e pedir um pedaço de Manezinho Araújo. “Não tem ninguém com esse nome”, respondeu o vendedor, depois de alguns segundos de silêncio constrangedor. O cliente deu risada, achou que estava brincando, e insistiu, apontando a torta de banana na vitrine.

Para meu espanto, aquela simples sobremesa de banana, creme e clara não só tem nome como também sobreno­me. O motivo do batismo é simples, já que a sobremesa foi criada pelo próprio Manuel de Araújo, que, além de doces, compunha canções. Mas o que leva alguém a fazer questão de chamar uma torta pelo nome completo? Haverá entre os doces uma hierarquia?

Se for o caso, esse apelido carinhoso não deve dar ao Manezinho muito prestígio. É muito informal. O senhor dos doces deve ser o bolo Souza Leão, tradicional de Per­nambuco. O nome é da aristocracia, nos remete a chapéu, monóculo e bigode pontudo. Mas do que é feita tão impo­nente iguaria? Mandioca, leite de coco, açúcar, manteiga e ovos. Nada que você não possa ter na despensa.

Apesar de o bolo ter recebido o título de patrimônio cultural do Estado, não se pode dizer que ele pertence ao povo: enquanto não for renomeado – sugiro “bolo de man­dioca” –, não será digno de forrar a barriga do trabalhador, que penou muito nas mãos das famílias tradicionais.

Outro candidato ao topo desta dulcíssima cadeia é o Monteiro Lopes. Trata-se de um biscoitinho de massa fina, metade coberto por chocolate e empanado em açúcar cristal. Surgiu nos idos 1800, no Pará, onde duas padarias competiam, a do senhor Monteiro, mulato, e a do doutor Lopes, português. Apesar dos pesares, seus filhos se casaram e, para simbolizar a união dos negócios, criaram o biscoito. Só se esqueceram de batizá-lo com algum nome digerível.

Mas não se enganem com sua origem – por trás desta história de amor, vive o fantasma da vaidade, disfarçada de gastronomia. Há alguns doces mais humildes que, apesar de terem nome próprio, não carregam o peso da oligarquia falida. Uma olhada rápida num livro de receitas antigo e pesco o bolo Maria Luiza, os biscoitinhos Lili, Didi e Bibi, Madalena, Adelaide e até mesmo a torta Fernando. O leitor está familiarizado com a bolacha Maria, a rosquinha Saman­ta, o doce Carolina e o bacalhau à Gomes de Sá, português que deve ao prato que criou sua entrada na enciclopédia.

Difícil dizer que a Norma, autora de uma torta com seu próprio nome, tinha intenções de perpetuar-se através da história – caso de Osvaldo Aranha, que, de tanto pedir o mesmo filé com alho frito, batatas, arroz e farofa, fez in­cluir o prato no cardápio dos restaurantes que frequentava.

Entendo a tentação que é imortalizar-se com uma so­bremesa, mas é descabido ao paladar engolir algo cujo nome bem poderia constar na placa de alguma avenida. No fundo, essas invenções não passam de adaptações de pratos que já existem. A Ana Beatriz confessa que o famoso Mara­vilha de Ana Beatriz nada mais é que um merengue, só que com groselha por cima. Chico Buarque tentou emplacar nos bares o Hollanda, que é, na verdade, um queijo quente com tomate. Vamos facilitar: até o mais calejado paladar se enche de dúvidas ao pedir um prato de nome pomposo.

Se há quem considere ofensivo dar nome de gente aos bichos, o compositor Manezinho Araújo não terá proble­ma em digerir a ideia de que prefiro chamar sua iguaria de torta de banana.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas