A pedrada [Cássio Zanatta]

Posted on 26/09/2016

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Cássio Zanatta*

Então, era tudo isso? Ou melhor, era só isso, já que tudo foi só metade, a outra nunca que houve?

E atirou a pedra no rio, esperando pela iluminação. Seguiu com as perguntas, mas as águas só respondiam em círculos de marolas, que balançavam os reflexos e, na margem, viravam umas ondinhas bestas.

Tem que doer? Tem que sofrer? Tem que fazer assim, mesmo que nada tivesse acontecido, ele parado na esperança, metade épico, metade bobo? Senão não é?

E o rio, nada. O silêncio.

Jogou outra pedra, das bitelas. Fez escândalo nas águas desacalmadas. Ouviu um riso claro, ofensivo. Era dela, era do rio, era devaneio? Era de uma siriema escondida por ali, bicho irritante. Nunca entendeu a graça de siriema e araponga, martelando na cabeça da gente.

Atirou uma macaúva dura, que só tucano consegue abrir, quem sabe assim o rio respondia. Quicou quatro vezes e nem assim fez a água falar. Vai ficar nisso? Essa coisa faltando, que não se pode sair procurando, porque foi essa sua jura? Difícil limite entre respeitar a promessa ou atender ao desejo. Agora dói esquisito, sem sangrar, pontada mal resolvida, feito macaúva que alguém atira dentro da gente e quica na boca, na veia, no fígado já meio estragado de bebida.

À margem do rio e da vida. Qual o sentido do sonho nas noites acordadas, da dureza da macaúva, desse melado na pele, da correção das formigas, de tanta estrela nas noites frias, se uma das metades rachou, e o conserto demora um tempo que ele não sabe se tem.

Desisto, então? Mas assim fica seco demais, feito se toda a água do rio evaporasse na resposta, deixando no fundo tudo o que você jogou, agarrado no lodo. Mas não há resposta ou explicação; a água segue, a nuvem segue (não falei da nuvem?), a vida segue.

Insisto, então? E a coragem, o sentido, não há, nem sinal algum; posso, claro, me enganar e supor. Mas antes, deve haver o respeito. E a noção de como é lindo e ridículo tudo isso.

Então tá. A próxima pedra guardo para a siriema, que é para ela aprender a não rir dessas coisas, a sonsa.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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