De poetas estranhos e outros tipos [Raul Drewnick]

Posted on 25/09/2016

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Raul Drewnick*

São estranhos os poetas. Conheço um que há anos se lastima e mortifica pela perda de um amor que até hoje nem ele sabe se chegou a ser verdadeiro.

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Um homem que nunca sofreu por amor deve se perguntar para que veio  ao mundo. Para passear?

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Conheço literatura já o suficiente para saber como me enganei ao julgar que pudesse vir a ser para ela algo mais que um leitor.

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Quantos belos textos foram outrora reunidos sob o horroroso título de crestomatia.

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Haicais deveriam pingar das árvores, depois da chuva.

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Quando sente o risco de perder o jogo, a gramática tem sempre um ás na manga, pronto para sacar: geralmente uma crase.

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Buscava um sentimento que o mantivesse vivo, ainda que fosse a luxúria.

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Quando se apaga a luz na sala e o gato adormece no sofá, no quadro o cisne arrisca-se a dar uma volta inteira no lago.

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Para ver como são as coisas. Se eu conhecesse Beckett naquele tempo, talvez ainda estivesse esperando por Godot.

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Dizer que uma mulher é linda deveria ser considerado um pleonasmo.

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O que melhor aprendeu com o amor foram os sorrisos falsos.

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Errar é humano. Persistir no erro também.

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Você se acha tolo por ficar toda noite olhando as estrelas. E elas, que toda noite ficam olhando para você, o que são?

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Por amar tanto, de louco já sou chamado, e cretino. Mereço melhor destino: nem tanto assim, nem tão pouco.

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Prepare-se para a morte. De forma constante e séria, estude toda a matéria, depois confie na sorte.

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No dia em que conheceres o amor, guarda bem a face amável dele, o sorriso, os olhos que te prometerão venturas. Nunca mais o verás assim.

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Tanto tempo tiveste, e não arranjaste desculpa melhor. Declarar a poesia como razão de vida te calhava bem quando tinhas dezesseis anos e tudo que fazias era perdoado porque eram irresistíveis teus olhos verdes.

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Eu me sinto como alguém que, tendo já morrido, parece que ainda não morreu muito bem.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas