Eu x Zidane [Daniel Cariello]

Posted on 22/09/2016

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Daniel Cariello*

Primeiro sábado em Paris. Primeira festa. Atrasei-me, depois de passar um dia (infernal) na Ikea – megaloja que é uma espécie de Tok&Stok misturada com Makro – comprando coisas para a casa.

Ao chegar, uma surpresa: dos alto-falantes saía música brasileira! “Essa moça tá diferente, já não me conhece mais…”, e os franceses, que adoram a canção, dançavam um samba meio frankenstein. Em seguida, mais Chico. E emendaram “O que será?”. Comecei a me sentir em casa.

Na rua estava muito frio, mas no grande apartamento – uma coisa rara em Paris – estava bem quente. Tão quente que tive que tirar o sobretudo, o casaco, o cachecol e as luvas, apetrechos comuns aqui, apesar de pouco familiares para os tupiniquins.

Charlotte foi me apresentando às pessoas. Meu francês não é lá essas coisas, mas dá pra bater um papinho aqui e ali.

– Esses são os donos da casa.
– Enchanté.
– Esses são meus amigos.
– Enchanté.
– Esses são um casal que mora no Senegal.
– Enchanté.

Enchanté pra cá, cerveja aqui, enchanté pra lá, cerveja acolá. Música brasileira no som. Já me sentia totalmente enturmado.

Aí me apresentaram pra um sujeito do qual não me lembro da cara. Só me lembro da camisa.

– Ça, c’est Daniel. Il vient du Brésil.

E o rapaz, tal qual um Clark Kent, abriu o casaco e me revelou sua verdadeira identidade.

– Regarde. – E mostrou a estampa que ostentava, orgulhoso, do Zidane, enquanto cultivava uma expressão facial cínica.

Isso mesmo, o Zidane, que marcou dois gols de cabeça em 1998 e deu um balão no Ronaldo em 2006, que nos impôs duas derrotas em Copas do Mundo. E que, na final de 2006, perdeu a cabeça. Ou melhor: meteu-a com gosto no peito do Materazzi, zagueiro italiano.

Aí eu me enchi. Talvez pelas derrotas do nosso time. Ou pelo dia de cão na Ikea. Ou pela minha ascendência italiana. Ou simplesmente pelo excesso de cerveja. Achei que deveria fazer alguma coisa.

E fiz.

Na hora em que o rapaz exibiu a figura do careca em sua camisa, percebi que o orgulho nacional estava em jogo, ali, naquele momento. Era um tapa na cara. Um desafio para um duelo. E a hora da revanche.

Senti o peso e a responsabilidade. Cento e noventa milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos aguardavam ansiosos por alguma ação minha.

Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto.

Feita a lambança, merecia um cartão vermelho, mas o máximo que pude fazer foi exibir um sorriso amarelo.

– Pardon.

No dia seguinte, acordei com uma baita dor de cabeça.

* Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas