Respeito ao fado [Carlos Castelo]

Posted on 21/09/2016

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Carlos Castelo*

Houve uma época que fui seguidas vezes a Lisboa. Outros tempos, certamente bem mais românticos que esses em que a chamam de “Nova Miami”. Isto porque, hoje, os brasileiros de classe média alta compram todos os imóveis, acima de 500 mil euros que encontram pela frente, para obter cidadania lusa.

Quando estive em Lisboa pela última vez era tudo muito diferente. Chegando lá resolvi logo ouvir um fado tradicional no Beco dos Embuçados. Depois de tomar algumas “Imperial” tentei achar um táxi. Mas devia haver algum evento naquela noite, já que foi complicadíssimo conseguir um.

O resultado foi que me atrasei. A microcasa estava abarrotada de gente. E todos já sentados. Depois de muita dificuldade vi meu nome numa das mesa bem à frente do palco. E, nela, um prato de caldo verde esfriando.

Depois de me espremer para chegar lá só me restou tomar a sopa portuguesa.

No momento em que colocava a colher na boca acendeu-se um holofote. Um homem com forte sotaque anunciou solenemente lá da mesa de som:

– Senhoras e senhores, vai-se tucaire o fado!

Começaram a planger as guitarras. Adentrou ao proscênio a cantante jogando um lenço negro sobre o pescoço. Fiquei excitado com aquela mítica presença e comecei a sorver o caldo verde intensamente. Estava realizando um velho sonho. Só que, para minha surpresa, a cantora volteou e saiu de cena.

– Senhoras e senhores, vai se tucaire o fado. RESPEITO AO FADO! – repetiu, com grande ênfase, o mestre de cerimônias atrás de mim. As guitarras mantiveram-se soando na mesma toada lirica e a cantora, repetindo o gesto de lançar o lenço dramaticamente no pescoço, tornou a aparecer.

O quadro era intenso. Eu descontava a emoção no caldo verde. Depois de ficar alguns segundos ali a musa, lançou-nos um olhar misterioso e saiu repentinamente. A luz do holofote passou a iluminar fortemente a minha mesa. O senhor que operava o som berrou:

– Ei, rapazote da mesa binte e sete! Mirei o número na minha mesa e vi um enorme 27 escrito à caneta pilot. Meio cego pela luz, virei-me para trás e lhe perguntei inocentemente.

– Quem, eu?

O português respondeu de modo brusco e a microfonia tomou conta do ambiente.

– Huuuuuuuuuu! É, o sinhoire mesmo! Huuuuuuuuu! Quer paraire de tumaire a purcaria desse caldo berde e respeitaire o fado, ó gajo? Sinão bou ter que tirar-lhe da casa com um pé nas traseiras!

Em seguida vieram as vaias. Mas como é que eu ia saber que, como o fado é uma religião, não se pode tomar sopa durante seu culto?

O lado bom de Lisboa ter virado uma “Nova Miami” é que o episódio da casa de fado não ocorreria hoje em dia. O Beco dos Embuçados de 2016 só deve ter hamburguerias gourmet . Os patrícios precisam satisfazer o gosto cosmopolita dos seus compradores brazucas.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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