Aposta macabra [Luís Giffoni]

Posted on 17/09/2016

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Luís Giffoni*

Há uma aposta contra o Brasil que sempre se ganha. Aposta macabra. Basta jogar as fichas contra nosso desempenho na educação. Vitória assegurada. Entra e sai governo, o mesmo resultado perverso nos persegue. Se nunca atingimos as metas – pouco ousadas, por sinal – com frequência retornamos a patamares inferiores, antes atingidos.

Foi o que aconteceu na semana passada, quando se divulgaram os dados do IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, referentes a 2015. No ensino médio, a proficiência em matemática piorou. Sim, piorou. A de português ficou praticamente estagnada. De duas, uma: ou nossos homens públicos são incompetentes, geração após geração, ou a educação não é prioridade para eles. Em geral, fico com esta hipótese. População mal formada e informada, sem senso crítico, não contesta, não perturba, não reage, acredita em mentira, é mais fácil de manipular. Lição maquiavélica tupiniquim.

Na semana passada, também li uma matéria em que o articulista contesta a universalização da leitura. Diz que sempre foram poucos os leitores assíduos, menos de 1% da população, que o ideal de devorar livros vem da elite, é valor pequeno-burguês. Ler Machado de Assis, por exemplo, não fará falta na vida de ninguém. Saber que a Terra gira em torno do Sol também não altera a vida de ninguém, ainda mais quando todos testemunhamos, da manhã à tarde, o giro do Sol em torno do nosso planeta… O articulista termina questionando o investimento público feito em livros. Esta aposta também é macabra. Ela joga a toalha na luta pela democracia. Em vez de generalizar o bem “pequeno-burguês”, prefere deixá-lo reservado aos poucos de sempre.

Esta conclusão me remete a outra, que sempre acontece quando saem os resultados do Pisa, programa da Unesco que afere conhecimentos básicos de matemática e qualidade de leitura e interpretação de textos em mais ou menos 60 países. Aqui também se pode fazer a aposta macabra e ganhá-la. Com certeza, o Brasil ficará na lanterna do certame, entre os 15 piores leitores e matemáticos. Os responsáveis pela educação já têm a resposta pronta para o insucesso, desgastada de tanto ser repetida: o Pisa não segue os nossos critérios de avaliação, portanto não afere nossa performance como deveria. Por que os demais países mal classificados não escapam por essa tangente? Por que, em vista da reprovação, tantos procuram melhorar o desempenho? A China nos dá um belo exemplo. Saiu da rabeira para assumir, em Xangai, a liderança do teste. Viraram os melhores leitores do mundo. E, com a população que tem, sete vezes maior que a nossa, o desafio deve ter sido difícil. Eles acreditam, cada vez mais, na educação. A liderança mundial que buscam depende dela.

Enquanto isso, a aposta macabra continua rendendo outros frutos. Dos candidatos ao ENEM, aproximadamente dois terços são analfabetos funcionais, isto é, passaram pelo menos 12 anos na escola e não aprenderam a ler e escrever com fluência. Pior ainda: quando se formam nos cursos superiores, um terço ainda continua nessa situação macabra. Que país sustenta seu desenvolvimento diante desse descalabro? Ou a educação, entre nós, também deixou de ser importante para o crescimento pessoal?

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações como do Prêmio Jabuti de Romance, da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Minas de Cultura, Prêmio Nacional de Romance Cidade de Belo Horizonte

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