Uh la la [Daniel Cariello]

Posted on 15/09/2016

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Daniel Cariello*

– Ding dong – Acusou a campainha, com seu carregado sotaque francês.

Achei estranho. Pensei que era um vizinho pedindo açúcar, sei lá. Abri. Parado em frente à porta um homem grande, loiro, que suava pelas ventas. Uma mistura de Gérard Depardieu com o brother do Jim Carrey em Show de Truman, mas um pouco mais bizarro.

– Bonjour – Ele disse.
– Bonjour monsieur – Respondi, caprichando no sotaque e achando que arrasava.

Daí ele desembestou a falar, rápido, papel na mão. Entendi nada.

– Pardon?

Ele repetiu tudo de novo, na mesmíssima velocidade. Agora pesquei uma palavra aqui e outra ali. Pelo que saquei, era alguma coisa a ver com as férias.

– Posso ler? – Pedi, apontando para o papel. Ele se enfezou.

– Mas é a mesma coisa que acabei de falar duas vezes!!! – Isso eu entendi bem. E o suor passou a sair pelo nariz também, formando umas bolhas d’água.

Aí começamos uma guerra de nervos. Ele suando cada vez mais e eu puxando o papel, tentando entender do que se tratava. Nossa relação não começava muito bem, pensei. Não deu para ler tudo. A coisa degringolou de vez quando empaquei em uma palavra.

– Qu’est-ce que c’est Pâques? – Nunca tinha visto isso antes, Pâques. Comecei a desconfiar que ele trabalhava no zoo, ia sair de férias e estava arrecadando dinheiro pra cuidar das pacas de lá.

Não respondeu. O nível de tensão era alto. Pelo tanto que suava, deduzi que o cara estava prestes a implodir. Era melhor encerrar aquele papo o mais rápido possível. Fiz cara de mau e fiquei olhando para ele. Ele fez o mesmo, mas era mais feio e já estava encharcado.

– Pardon monsieur, não entendi bulhufas.
– Eu também não! – Senti meus cabelos voarem com o calor do seu bafo.

O cara deu as costas e saiu pelo corredor, bufando. Antes que eu pudesse fechar a porta, deu tempo de ouvir um urro de “putain!”, algo equivalente ao nosso “puta merda!”.

Dei duas voltas na chave, só pra garantir.

P.S.: Pâques é Páscoa. O sujeito devia querer uma ajuda para viajar no feriado. Ou não.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas