O Grande Tema [Cássio Zanatta]

Posted on 12/09/2016

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Cássio Zanatta* 

Eu estava crente que humilharia os grandes filósofos. Que desmascaria esses pensadores-celebridades que dão palestras na internet. Que iria ser entrevistado ao vivo pela CNN e impressionaria tanto o mundo, que o resto da vida desfilaria num infinito tapete vermelho, que cada cidadão da Terra se revezaria para estender à minha frente.

Pois eis que eu havia chegado ao Grande Tema.

Aquele, que responderia ao mesmo tempo as aflições dos eslovacos, diminuiria o índice de suicídios na Dinamarca, acabaria com a fome em Bangladesh, esclareceria de uma vez por todas por que certas coisas só acontecem ao Botafogo e faria o esquimó rir 3 dias e 3 noites em seu iglu, abraçado a um foca, dizendo: “Mas esse tempo todo, era só isso?”

Exposto o Grande Tema, eu receberia a chave de 729.823 cidades e, para isso, viajaria 9 anos e meio de primeira classe, dormindo nos melhores hotéis de cada uma delas. Menos de Amparo, que jamais vai me perdoar ter cheirado lança-perfume bem atrás da mesa do delegado, no Carnaval de 88.

Pois o elegante cidadão pararia no meio da Via Condotti e, entre maravilhado e desesperado (não é para tanto, mas os romanos são assim, exagerados), tiraria seus sapatos italianos novinhos e, de meias vermelhas, brincaria de saci, pulando de braço dado ao carabinieri.

Queixos desabariam na ONU. Palmas ecoariam de Bristol a Carazinho. Eu ficaria enjoado de tanto beber champagne. Tiraria fotos fazendo chifrinho em Lady Gaga. Recusaria propostas para trabalhar na NASA (não me interessa ir a Júpiter, mas a Gonçalves). E a cada um que fosse desvendado o Grande Tema, lágrimas e risadas conviveriam em paz.

Um líder espírita psicografaria uma mensagem de Einstein para mim: “Boa, garoto!” Minha descoberta faria os anéis de Saturno se mudarem para Marte, mexeria na ordem dos signos e inverteria a posição dos hambúrgueres duplos.

Mas a verdade, senhoras e senhores, a miserável verdade, é que eu anotei,sim, o Grande Tema, mas joguei o papel fora por engano, pensando que fosse aquele comprovante amarelinho que sai da máquina do cartão de débito. E não estou certo se na Rodoviária de Itobi, no banheiro do Bar do Nunes ou se anotei o novo celular do Orlandão por cima.

Não se aborreçam comigo. Não se desesperem, há uma esperança. Lembro-me vagamente de ter algo mais a ver com rapadura do que com física nuclear, mais para tobogã que embriões galácticos. Mas não tenho certeza. E, enquanto não tiver certeza, nada direi. Digam a esse Papa Francisco para não ficar me ligando de hora em hora, sujeito insistente, tá doido.

Para ser sincero, estou meio decepcionado. Não acho que o Grande Tema mereça esse oba-oba todo. A humanidade anda muito desesperada, demais.

Mas, esperem… está vindo… estou me lembrando agora… Nossa, é verdade. Parem tudo, lembrei! Chamem a família, a imprensa, o Suplicy, o Papa Francisco (não guardo mágoas), o profeta do fim do mundo, o porta-voz da ONU. É isso mesmo, meu Deus.

O Ney Matogrosso. Quem diria.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

 

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Posted in: Crônicas