Frases como pipas ao vento [Raul Drewnick]

Posted on 11/09/2016

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Raul Drewnick*

Tudo que em você não estiver a serviço da beleza haverá de ser posto sob suspeição.

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Triste é alguém ter, já no fim da vida, a literatura como única esperança, não mais de glória ou realização, mas de puro, amargo e insuficiente alívio.

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Haverá sempre algum espaço onde possas cultivar a rosa da poesia. Se severo for o vento e hostil a terra, planta-a no coração, esse em que ainda conservas os ideais da juventude.

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Ainda que frequentemente não pareça, nasci para escrever.

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Há quem considere a poesia uma espécie de exercício de palavras cruzadas, e num domingo, depois do almoço familiar e da soneca vespertina, faça pelo menos três deles sem parar de palitar os dentes.

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Se há um sofá na sala, e nele não está deitado um gato, alguma coisa foi mal planejada na casa.

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Escrever frases curtas revela ao menos uma sabedoria: em textos menores, menores também os riscos de desagradar. O leitor começa a ler e pronto, já leu! E esses textos, saiba-se lá por quê, recebem o pomposo nome de máximas.

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Merecias que eu mandasse a ti um presente leve e tão suave como o devaneio de uma ave ou um suspiro de colibri.

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De um escritor se espera que diga tudo bem, mesmo quando diz que não tem nada a dizer.

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Com o chicote, você abriu uma fonte em meu peito e me bebeu inteiro.

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Se o amor nos castigar ou nos matar, será porque matar e castigar têm algum sentido. O amor é um déspota esclarecido.

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Para ganhar respeito, a gramática deveria ser mais peremptória e não permitir artigos indefinidos, pronomes relativos e sujeitos ocultos.

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E, se em nosso último minuto um passarinho cantar, os ingênuos de sempre julgarão que canta por nós.

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O sol apareceu tão mirradinho e friorento que a Operação Cata-Bagulho o atirou para dentro do caminhão.

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Ainda que nos magoe, nos fira e nos mate, o amor há de ser mencionado sempre com um sorriso, pela lembrança dos dias em que não nos magoou, não nos feriu e não nos matou.

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Me perguntas quem sou. Sou alguém que se procurou, no caminho se perdeu e nunca mais se encontrou.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas