Pecando contra a medicina [Mariana Ianelli]

Posted on 10/09/2016

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Mariana Ianelli*

Não é que alguém não ame a vida se um dia se revolta contra a medicina que prescreve, que perscruta, que previne. Não é que alguém prefira o que dispensa esforço se se recusa a andar na linha com uma limpa rotina de dietas, exames, exercícios.

É que existe o páthos, doutores, o páthos, a perdição de exagerar no sal, no açúcar, na bebida, e ser apaixonadamente fraco diante de sem razões que os vigilantes da boa saúde recriminam tanto quanto quem prega contra o fogo dos infernos.

Se até Sophia de Mello Andresen, que escreveu mais de quinhentos poemas, que viajou o mundo, traduziu o Purgatório de Dante, e era mãe de cinco filhos, se até ela, Sophia, com tantos motivos para se demorar nesta vida, disse uma vez que tinha medo de ultrapassar os 65 anos de idade. Cecília Meireles também, num elogio a Okakura Kakuzo, considerou o tempo de meio século o “limite de bom gosto da vida humana”.

Porque é de repente uma lua indisfarçável no alto céu, toda amarela, um Leonard Cohen das antigas na cabeça, a lembrança de uma palavra morna encaracolada ao pé do ouvido, e já lá se vão quase três garrafas de vinho. Porque são tardes e tardes à espera num banco de jardim, sem mais companhia ou consolo que um maço de cigarro atrás de outro. Porque é uma saudade dos tempos da casa da avó que a gente desafoga com um macarrão a carbonara, um doce de abóbora com cravo, um licor de jabuticaba.

Porque existe o páthos, doutores, o páthos, que rouba a alma da doma da disciplina em todos esses descomedimentos, esses poços de emoção, esses vícios, que, no fim das contas, acabam valendo mais do que muitos anos de vida.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas