Ainda [Madô Martins]

Posted on 09/09/2016

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Madô Martins*

Que mulheres são discriminadas em lojas de ferragens, todas sabemos. Tentei entrar em uma, mas um homem distraído interditava a porta, estreitada por sacos de cimento. Só consegui quando o dono do estabelecimento, de trás do balcão, recomendou: “Dá licença aí, ô. Pois não, senhora?”.

Tudo parecia ir bem, até que fiz o pedido: “O senhor por acaso teria uma tampa para ralo de  tanque com 2,5cm?”. O proprietário fez cara de paisagem e alguns segundos depois, perguntou “de que tamanho seria?”.

Fiz um círculo com o indicador e o polegar: “Dois centímetros e meio, mais ou menos assim, veja”. Ele abriu um saquinho com tampas de borracha. De relance, percebi que não serviriam: “Estas são grandes, o senhor não tem uma régua?”.

Com má vontade, ele apanhou a trena na prateleira. Mediu com ela uma das tampas, claramente maior que 2,5cm, e me disse: “Acho que esta dá”.

“Desculpe, não dá não, é maior do que preciso. Pode me emprestar a trena?”. Medi novamente, diante de seus olhos: “3,5cm, vê?”.

“A senhora tinha que medir o ralo com um palito e marcar nele o tamanho certo”, teimou o homem. “Para quê, se medi com régua e sei que tem 2,5cm?”

Meu argumento passou dos limites. Como uma mulher invade território masculino por excelência e ainda insinua que um de seus ocupantes está errado? Fechando a embalagem bruscamente, o atendente respondeu, ríspido: “Só tenho estas”. “Obrigada, então”, me despedi. E parti imaginando a que era pré-histórica pertenceria aquela loja…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas