Símbolos [Elyandria Silva]

Posted on 06/09/2016

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Elyandria Silva*

O calor veio antes do previsto, não quer ser chamado de Verão, mas também se ofende ao ser intitulado Primavera. Se os humanos andam tão indecisos e confusos imagine, então, o tempo. Clima e gente já não se entendem, gente com gente nem se fala, cada vez menos buscam se compreender. Todos seguem calados, sisudos, poucos sorriem, se esquecem. A vida chama, os problemas ocupam a maior parte do tempo, não aquele do clima e, sim, o dos números. Fim de semana, tarde de sexta, o sinal fica verde, os carros avançam, os pedestres aguardam com semblantes que denunciam a imersão nos pensamentos, talvez estejam planejando o sábado e domingo. O vento quente desarruma os cabelos das mulheres que amam as rasteirinhas. O ar frio deve estar gostoso dentro do carro da senhora com penteado de Miss Universo e boca vermelha. A galera com piercing no nariz, roupas pretas e cabelos arrepiados se refestela nas escadas, em frente ao Terminal. Um grupo de bonitões divide a pequena mesa do café e solta risadas gostosas, ouvindo as histórias que o engravatado conta, em tom de segredo. Os morros repousam e a todos protegem, mesmo com a iminência de que um dia possam descer e causar alguma tragédia. Uma pequena fila aguarda para comprar seu sorvete de casquinha da máquina, os que já compraram se lambuzam balançando os pés nas cadeiras de plástico azul. Gosto desse conjunto diário de símbolos pitorescos, sinto falta quando não os vejo.

A cidade pulsa, vibra freneticamente, assim ela é… Colorida e viva, Jaraguá do Sul se configura num grande panorama de confusões e tudo isso se move diante de meus olhos. Os símbolos das cidades nos sequestram todos os dias, nos formatam para os padrões que moldam nosso cotidiano urbano e, sem perceber, fazemos parte do conjunto de sons, perfumes, cores, imagens. A carga simbólica dos caminhos que percorremos todos os dias, das esquinas que dobramos, das pessoas que encontramos é grande, torna-se sólida, atrai nossos sentidos. Certamente deve ter atraído também os sentidos de Baudelaire quando este disse, num de seus poemas, que “O homem é uma criança perdida nas florestas de símbolos”.

O começo do fim do dia, os batimentos dos corações jaraguaenses diminuem um pouco, os engarrafamentos imitam as grandes metrópoles, toca as melhores da Antena 1, saudades da antiga Academia, temos carros japoneses agora. Aumento o som, mais símbolos para minha coleção, eles surgem a todo o momento. Tento não me perder, mas sei que estou numa floresta selvagem cercada de morros.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas