Jamais discuta com fanáticos [Rubem Penz]

Posted on 02/09/2016

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Rubem Penz* 

Ah, conselhos… Um dia, mesmo contra a sua vontade, traindo um grave compromisso assumido no calor do travesseiro, daqueles íntimos mesmo, você cairá na tentação de proferir algum. E, só para piorar, ele será acompanhado de termos peremptórios, tipo sempre ou jamais, estes irmãos gêmeos que nos confundem quando teimam em ser muito parecidos. Hoje é meu dia de ser infiel. Tranquei o juízo no quarto escuro e darei um conselho: jamais discuta com fanáticos.

Primeiro, porque eles não querem ouvir o que você tem a dizer. O fanático é imune ao contraponto, tem nojo da moderação, despreza o contraditório. Maniqueísta de carteirinha (e com a mensalidade em dia), só conhece dois lados para qualquer questão: o certo (dele) e o errado (um milímetro fora dele). Qualquer frase que inicia com “mas”, por exemplo, dispara no fanático um alerta de defesa. Uma pessoa normal, depois de um “mas”, começa a rever conceitos, nota desconhecer de todos os ângulos ou, sei lá, admite falhas na própria percepção. E não vê risco algum nisso. Sequer julga ofensivo. O fanático, garanto, não é uma pessoa normal.

Segundo, jamais discuta com fanáticos pois são todos uns radicais empedernidos, e raízes não existem para se mover. Quem espera deles o sentimento de alteridade, perde seu tempo. Sabe empatia, ou a menor disposição para se colocar no lugar do outro? Até mesmo o reconhecimento de que exista mérito fora de sua crença? Isso não é para o fanático. Pior: em questão de minutos estará acusando você de ser um fanático. Isso se ele despreza a sua pessoa. Caso simpatize, chamará você de burro, alienado, inocente, idiota, capacho… Ou seja, incapaz de pensar pela própria cabeça – por vias tortas, uma espécie de absolvição benemerente.

No acaso de o leitor aí do outro lado ser um fanático (risco crescente destes tempos), o conselho que tenho a dar troca de irmão gêmeo: sempre discuta com um fanático. No momento em que ele comunga de seus pensamentos, torna-se uma festa! Vocês ficarão concordando cada vez mais efusivamente e xingarão em passeata todos os demais habitantes do planeta. Quando for um fanático contrário, orgasmos múltiplos estarão garantidos: ambos espumarão de raiva e terão mais e mais e mais motivos para radicalizar o discurso. Fanáticos opostos se justificam, explicam-se, dão razão à luta.

Porém, se acontecer de dois fanáticos opostos começarem uma disputa na minha presença, e eu me afastar em desconsolo, muito cuidado! Ao me considerar burro, alienado, inocente, idiota e capacho, o que não chega a surpreender, estará concordando em plenitude com o fanático adversário. E isso ninguém quer, né? Já pensou o horror? O que vão dizer em casa?

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é publicitário, escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis) e “Enquanto Tempo” (BesouroBox). Desde 2008 ministra oficinas de literárias, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, a qual alcançará dez antologias em 2016. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas