O mais longo filme de terror [Guilherme Tauil]

Posted on 30/08/2016

3



(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Quando as coisas pareciam perdidas para o rei da Escócia, o guerreiro Macbeth atravessa o campo de batalha cortando caminho e soldados, e, com sua espada fumegante, descostura de um só golpe o comandante inimigo da barriga ao maxilar, para depois exibir o que restou de sua cabeça como troféu. A cena é de Shakespeare, mas talvez pudesse ser minha se tivesse levado a sério a morbidez que assombrou minha infância.

Não estou dizendo que fui um shakespearezinho – apenas uma criança com inclinação para o grotesco. Com frequência, e a troco de nada, criava essas imagens sanguinolentas, cenas apavorantes, e depois morria de medo. Nunca tive filtro para a imaginação: toda sugestão que aparecia no fundo da mente se desenvolvia de imediato e de uma vez só, como um airbag. Bastava encarar o espelho, por exemplo, para imaginar como seria boa uma cena em que saísse de lá um braço meio troncho e levasse minha escova de dente para o além, e de repente ali estava o braço, a tatear no escuro o meu kit Colgate.

Sem conseguir conter o fluxo dessas assombrações, me restava a coragem para enfrentar os estalos de geladeira – abertura de portões abissais – e as samambaias penduradas – monstros deformados. Tomar um copo d’água à noite era uma odisseia, e só atravessava o cenário macabro no qual o corredor se transformava porque confiava demais que o interruptor nunca falharia.

Durante muitos anos, criei meus próprios pesadelos. Se por acaso a criatura que me assombrasse viesse pronta de algum filme, de um modo que não era exatamente aquele que me botava medo, dava um jeitinho de piorá-la eu mesmo, emprestando algum sorriso pútrido ou um andar perturbador que encontrasse em meu baú de coisas medonhas. Passei a infância toda dirigindo um filme de terror – o mais longo filme de terror.

Hoje, com a cuca livre desse horror obsessivo, penso que se tivesse feito as pazes com meus monstros, poderia até ter trilhado um caminho promissor como roteirista de cinema. Mas a trégua não foi possível, e me restou o ofício de cronista, que não trata nunca de monstruosidades. Sem conseguir me esquecer daquelas feições nem guardar minhas criaturas numa gaveta, foi preciso expurgá-las no fim da infância – um dia, com a sabedoria das mães, a minha se sentou ao meu lado e me apontou uma luz: se não podia me livrar deles, bastava imaginá-los perdendo a cor pouco a pouco, se afastando lentamente, até que estivessem todos desbotados, até que estivessem todos pequeninos e mudos, até que não pudessem ser reconhecidos. Até que não fossem mais dignos de aparecer em história nenhuma.

__________

* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

Anúncios
Posted in: Crônicas