Que remédio? [Cássio Zanatta]

Posted on 29/08/2016

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Cássio Zanatta*

Plim, plim, plim, plim, diz o remédio a conta-gotas. Eu digo: mais depressa, por favor. O pessoal do setor é simpático, cuida bem de mim, diz as coisas mais assustadoras no diminutivo, ajeita o travesseiro, até suco trouxe. Mas é que eu quero sair daqui, preciso, a vida é lá fora.

Preciso sair para sentir a disputa do calor com o vento. Porque já tem jacarandá vestido de roxo. Sair para buscar Maria e Pedro no colégio, me faz mais bem que o remédio. Que pinga tão devagar e eu preciso sair logo, porque é tempo de tico-tico cantar “eu vi teu tio, tio” e ele precisa de plateia, o pessoal tem prestado atenção a outros assuntos. Sei que ele trocaria facinho minha audiência por uma namorada jeitosa, mas insisto na pretensão de pensar que é para a gente que ele canta.

Preciso sair para ir à feira, ouvir o pregão da dona da barraca de tomate. Passear de braço dado com Beatriz, observados por aqueles peixes que nunca fecham os olhos – deve ser o contato com o gelo que não os deixa dormir. Beatriz combina com perfume de melão. Preciso sair desse lugar,que sem braço dado ,andar pela vida fica muito difícil.

Plim, plim, plim, plim, que lenga-lenga é essa, vamos com isso. Ficar parado me faz lembrar de que decepcionei alguém. Que aquele livro que meu amigo me emprestou há quinze anos continua comigo. Que não paguei isso, isso e aquilo outro. Que não fazer nada dá nervoso e mau hálito. Falta muito (pergunta que toda criança faz,assim que o carro entra na estrada e a viagem é de cinco horas)?

Plim, plim, essa coisa vai cuidar de mim? É uma rima mas não chega a ser poesia, para que fosse precisaria haver nuvem e por ora estou sem janela. Plim, plim, deixei o carro no estacionamento. E estacionamento é palavra pouco propensa a poesia. A exceção foi quando Beatriz contou que estava grávida de Pedro – em um estacionamento.

Preciso sair porque é quase setembro, porque é de manhã, porque um amigo me trouxe pé-de-moleque de Piranguinho, porque se eu não tomar café até as dez e quinze, viro abóbora e porque houve um terremoto na Itália para lembrar que a vida é indefesa.

Quando acabar, vai soar um apito que vai chamar a enfermeira. Não chega a ser o sinal que anuncia o fim da aula no colégio, mas é alegria. Vou poder sair daqui, falar de futebol com quem encontrar no elevador, de chuva com a moça do café e beijar a primeira moça estressada que buzinar forte e insistentemente, mesmo estando ao lado de um hospital, para ver se ela se assusta e sossega um pouco.

Plim, plim, plim, plim, fim.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas