San Giovanni a Piro [Daniel Cariello]

Posted on 25/08/2016

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Daniel Cariello*

Começada em Paris, a caravana dos Cariello passou por Marseille e depois chegou a Roma, a partir de onde veio a ser reforçada com a presença do meu pai. O rumo seguinte e de onde escrevo nesse instante, a pequena San Giovanni a Piro, no sul da Itália, é uma espécie de Meca da família. Foi daqui que partiram meu bisavô e minha bisavó, há um século, em direção ao Brasil. Chegaram a São Paulo e depois instalaram-se no Rio de Janeiro, onde nasceu meu avô paterno. E mais tarde mudaram-se para Vitória, terra natal do meu pai.

San Giovanni a Piro é um vilarejo do qual ouço falar desde pequeno. E no meu universo infantil construí a imagem de um lugar velho e escuro. Afinal, se meus antepassados o abandonaram é porque devia haver algo errado. Mais velho descobri que esse “algo errado” era a forte crise pela qual a Itália passava na época, causa de um enorme êxodo populacional, principalmente em direção ao Brasil e aos Estados Unidos. Mas a pintura construída na infância permaneceu na minha mente.

Nossa chegada ao vilarejo, perto da meia-noite, ajudou a reforçar essa impressão de abandono. Poucos dos cerca de dois mil habitantes estavam na rua, o que é bem compreensível em um lugar desse tamanho.

Na manhã seguinte, o sol brilhava. E os rostos e espíritos foram se mostrando aos poucos. Como na casa de Francesco Cariello, um primo distante. Meus pais já haviam estado um par de vezes na cidade, com dois dos meus três irmãos, e conhecem muitos endereços e pessoas. É meu pai quem toca a campainha. Vincenza, esposa de Francesco, atende. Ela abre a porta e um enorme sorriso.

– Orlando!
– Vincenza!
– Comme stai?
– Tutto benne. E voi?
– Tutto benne. Há quanto tempo… Francesco não está, mas volta logo.

No mesmo instante, nosso primo vira a esquina em seu velho carro. Nem bem acabamos os cumprimentos e já haviam chegado mais parentes. E logo outros mais. Não sei como ou de onde vieram. Em poucos minutos éramos quinze Cariellos conversando (ou tentando) animadamente, como velhos conhecidos. Ou como a família que somos. Fomos embora deixando abraços efusivos e a promessa de voltarmos a nos encontrar.

Depois do almoço, instalamo-nos na varanda do Albergo La Pergola, o maior (senão único) hotel local. E as visitas, de surpresa ou não, sucederam-se em perfeita sincronia. Vincenzo, que está aprendendo português para falar com o ramo brasileiro da família. Rosalia, a moça simpática que não é prima, mas é como se fosse. Filippo e sua esposa Maria, famosos no nosso núcleo familiar por terem oferecido uma refeição de 7 pratos na primeira visita dos meus pais, em 2003.

Entre uma aparição e outra, Charlotte e eu decidimos dar uma volta de reconhecimento da cidade, fundada em torno do ano 900, em uma área elevada (a Piro significa “no alto”) e perto do Mediterrâneo. A vista para o belo Golfo de Policastro é de emocionar. Ainda mais quando penso que desse mesmo mar meus bisavôs partiram para o Brasil, há mais de 100 anos. E neste país distante e desconhecido fundaram uma família. A minha família.

Embrenhamo-nos nas ruelas de San Giovanni a Piro, entre escadas, pequenos becos e varais com roupas secando. Entre velhos conversando e crianças brincando. Entre cachorros e gatos aparentemente sem donos. Entre grandes sobrados e pequenas moradas, todos com as portas abertas. E cumprimentando os que cruzávamos.

– Buona sera!
– Buona sera!

Um pouco ao longe, avistei uma pequena família. Os pais sentados no batente em frente a uma casa. O filho divertindo-se com seu carrinho.

– Buona sera!
– Buona sera!

Na hora, pensei nos meus bisavós, nunca mais retornados à terra natal, e principalmente no meu avô, que morreu sem ter conhecido suas origens. Se tivessem permanecido em San Giovanni a Piro, talvez se parecessem com aqueles ali. E não é que havia mesmo uma semelhança daquele bambino com as antigas fotos do pai do meu pai?

Olhei para trás, para vê-los mais uma vez. O menino parou de brincar e passou a me fitar. Também fixei a vista nele, que sorriu pra mim e piscou com o canto do olho, em uma cumplicidade ancestral. Virei pra frente e continuei meu caminho, sorrindo.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas