Rochedo [Elyandria Silva]

Posted on 23/08/2016

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Elyandria Silva*

Um mundo de pedra, sem cor, sem vida. Eles viviam em um rochedo. Ruas de âmbar, carroças puxadas por cavalos, muita pobreza, e orgulho, em cada dia que se findava. O orgulho é para aureolar a resignação pulsante dos infortúnios que caíam como interrogações.

Nas ruas de cima, com suas ligações disformes, em anda lembrando a linearidade, homens, mulheres, velhos, novos, pretos, brancos, caminhavam rumo aos seus afazeres. Empurravam carrinhos com mercadorias, carregavam balaios, sacos nas costas. Equilibravam-se entre troncos-ruas e ruas-troncos, numa vida de malabarista na escuridão. Se não erma troncos eram grandes blocos de pedra, escorregadios em dias de chuva. Essa gente vivia numa época difícil.

Nas ruas do meio, para aqueles trabalhadores braçais, que se andavam uns nos outros, e também morriam uns nos outros, tipo minhoca que se beija por inteiro, a vida parecida melhor do que a do povo de cima. Era só impressão, só faz de conta. Como formigas, executavam a valsa cinza do vai e vem de trabalho louco. As costas era o transporte mais seguro.

Roupas modernas os faziam mais avançados que os cambaleantes e sofridos trabalhadores das ruas de cima.

E nas ruas de baixo havia uma tristeza vagarosa e lúdica. Eram em menor número e, por isso, quem sabe, fossem tristes. Ou eram tristes e, quem sabe, por isso fossem poucos.

O quadro gigante ocupava toda uma parede. Alto, quase real em toda a sua proporção, quando olhei, tive a sensação que todas as pessoas saíram de dentro dele e viriam em nossa direção pedir ajuda, com os sacos de roupa suja, com os balaios, com as carroças, com a luta da existência miserável. Um quadro fotografado e guardado, da última Bienal em São Paulo. Um quadro de tamanho singularidade, sem sol, mas alquímico nas imagens, com aqueles seres minúsculos, que entram na mente de quem por lá passou, e permanece.

Algumas imagens falam por si. Algumas palavras tentam falar por certas imagens, não sei dizer se conseguem.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas