Samba linguagem [Daniel Russell Ribas]

Posted on 22/08/2016

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Daniel Russell Ribas* 

Já era quase oito horas quando Pedrinho chegou no samba do Ouvidor. Até aí, tudo bem. A novidade era que ele veio acompanhado, e tornando a situação ainda mais estranha, por uma louraça. Não poderia ser… Como é que uma gata daquelas poderia estar com uma criatura tão envelhecida e bizarra como Pedrinho?

Ouvi a loura dizer qualquer coisa, mas em um sotaque estrangeiro. Era americana. Devia ser isso. Acabou de chegar à cidade, foi procurar o “samba de Janeiro”, alguém deve ter indicado o Bip, de cuja roda de domingo sou um dos participantes com meu cavaquinho, e lá esbarrou no Pedrinho.

Agora, para efeito de melhor compreensão, tenho que contar qual é a do Pedrinho. O Pedrinho é um misto de empregado, bêbado e mascote do Bip. Não converso muito com ele, mas, pelo que vi, costuma ganhar uns trocados para ajudar na arrumação. Carregar mesas e cadeiras, esvaziar o lixo, coisas pequenas… Além do dinheiro, bebe por conta e aproveita do seu direito com convicção. Ele é um cara baixinho, magrelo, anda devagar e ligeiramente encurvado, como se o corpo estivesse com ferrugem nas articulações. A pele enrugada e queimada de sol sugere que ele faz algum bico na praia durante o dia. A idade está aberta a debate. Pode estar nos 50, quase 60, mas a aparência e mobilidade sugerem seus 70. Com certeza, não é tão velho quanto aparenta.

Outro fator distinto do nosso protagonista é sua solicitude com as frequentadoras do local. Todas, sem exceção, embora fique mais tempo com as jovens. A maioria o encara com humor e gosta dele. Algumas preferem se manter distantes. Não que Pedrinho se importe. Isso quase lhe custou muito, quando, certa vez, ficou ciscando perto de uma moça comprometida com um sujeito de pavio curto. Por sorte, algumas mulheres viram quando o cara o agarrou pelo colarinho, levantou-o do chão e o pressionou contra a parede. Salvo pelo gongo, salvo pelas garotas. As mulheres, sempre as mulheres com Pedrinho.

Então, lá estava o Pedrinho com a gringa. Primeiro, pensei que ele estivesse sendo um “guia de improviso” só para poder ficar ao lado da moça. Pedrinho, mosca de padaria que é, não perderia a oportunidade de fuçar, cheirar e pegar no braço de um monumento de 1,90 m, seios fartos e cabelos encaracolados cor de ouro. Acho que nenhum homem, aliás, perderia essa. Só que, aos poucos, fui percebendo algo esquisito. A loura passava o braço em volta dele, a mão em sua cabeça grisalha e a beijava. Era a primeira vez que via os carinhos de Pedrinho sendo correspondidos. Pensei de novo: “Não… Ela deve estar achando o cara engraçado, tentando dar em cima dela… Dando um pequeno agrado para o velhinho que a ajudou a encontrar a roda. Só isso.”

Os músicos começam a tocar A Voz do Morro. Pedrinho e a americana dão passos cômicos para a direção da rua e começam a dançar. Ambos sorriem demais. Pedrinho se move o máximo que consegue com suas juntas duras e a sua companhia o imita. “Eu sou o samba”, ele canta e ela tenta imitar. Pedrinho provavelmente se sentia como na música: “A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor/ Quero mostrar ao mundo que tenho o meu valor/ Eu sou o rei do terreiro”. A loura o abraça e no “Sou natural daqui do Rio de Janeiro”, beija-o. Uma garota. Jovem. Linda. Beijou. O Pedrinho. Nos lábios. Não, eu não tava bêbado. Tá certo, não foi um beijo de boca, com língua e tudo, mas foi nos lábios. E não foi bitoquinha não. Foi sincero. A mulher deveria ser mais doida que o Pedrinho. Quem diria?…

Após o choque, um sorriso se esboçou em meus lábios e foi aos poucos se desenvolvendo em um riso discreto e simpático. Eles continuavam “dançando”, alegres, sem se importar, como se não houvesse nenhuma diferença entre eles. Agiam como os casais de universitários na roda. Ninguém mais estranhava. Alguns conhecidos apareciam e falavam em tom divertido e de apoio: “Aê, Pedrinho, mandou bem!” E eu concordava com todos. Ele mandou muito bem.

Pedrinho dizia para a loura “Ai lóviu! Ai lóviu! Ai lóviu!”, com seus dentes brancos, quase marfim naquela iluminação, reforçando a corte. Ela não dizia nada e o beijava de novo; nos lábios, sem pressa, com as mãos brancas, longas e delicadas em seu rosto ainda quente e marcado da praia.

Assim ficaram até a última música. Ele repetia “Ai lóviu!” e a moça só sorria em resposta. Ela provavelmente não deveria entender o que ele queria dizer ou não levava a sério. Ele, com certeza, não sabia inglês. Mal conseguia entender o que ele dizia na nossa língua a maior parte do tempo. Ainda assim, ignoravam as barreiras óbvias. Curtiam o momento e encontraram um canal de sintonia nos sambas antigos. Por isso, quando terminou a saideira, partiram. Foram abraçados para a roda que iria começar na Gamboa; Pierrô e sua Colombina, só cantando, sem sinal de triste fim.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas