Pokémon Go nos faz mais inteligentes? [Luís Giffoni]

Posted on 20/08/2016

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Luís Giffoni*

A febre do Pokémon Go (deveríamos aportuguesar para pokemongo) me deixou fascinado. Por que tanta gente aderiu ao joguinho? Ao lado de dois netos, saí a procurar a razão, enquanto eles capturavam Charmander, Bulbasaur, Zubat, Ekans, Pidgey e outras esquisitices. Não descobri. O game me pareceu idiota demais para seduzir alguém. Fiquei ainda mais fascinado. Como uma atividade tão alienante conseguiu atrair tantas crianças e até adultos? Soube que um ministro do governo interino foi flagrado caçando Psyduck e Drowzee durante o expediente. Seria o fundo do fundo do poço?

Como resposta, pensei na campanha de propaganda, muito bem concebida. Teve a genialidade de Steve Jobs ao apresentar seus produtos. Será que ele, lá do outro lado, assessorou o lançamento? Foi perfeita a ligação do Pokémon com o desejo. Antes de começarem as vendas, já havia paixões à primeira vista no mundo inteiro. A expectativa criou precoces laços afetivos.

Foi, também, perfeita a associação com a tecnologia: “realidade aumentada” é uma sacada maravilhosa, ajunta velhos monstrinhos ao velho GPS e mais nada, mas soa deliciosamente atual. Pense bem, leia de novo: “realidade aumentada”. Não é um vazio deslumbrante?

Foi, ainda, perfeita a introdução da caça, do movimento, da ação: o joguinho tirou os zumbis que ficavam parados diante da tela e espalhou-os pelas cidades do planeta, quais múmias em fuga do museu, apontando os celulares para um lado e outro, andando feito barata tonta, rindo sozinhos e correndo sério risco de ser atropelados.

Tudo isso não bastou como explicação. Eu ainda não entendia como estourou a pokemongomania. Talvez a ciência tivesse a resposta. Descobri que certos joguinhos melhoram os processos cognitivos. Por exemplo, os games de ação Call of Duty e Medal of Honor aumentam a atenção. Portal 2 ajuda a percepção espacial. StarCraft facilita a flexibilidade cognitiva, ou seja, favorece pular de uma tarefa para outra sem perder o foco. Mas e o Pokémon, que nada tem a ver com esses games? Que ciência estaria por trás dele?

De repente, a luz se acendeu. O óbvio é difícil de enxergar: o ser humano gosta de curtição. Há público para todo tipo de diversão, até para dar tiro de chumbinho nas nádegas dos amigos ou atingi-los no rosto com bolas cheias de tinta. Ou para brigar com eles na lama. Ou mergulhar no meio do gelo ou do pântano. Ou participar do Campeonato Mundial de Lançamento de Celular à Distância. Ou do Campeonato Mundial de Caretas. Ou apostar em corrida de caramujos.

Pokémon é desses fenômenos que desaparecem com a mesma rapidez que surgem. Aliás, o fenômeno já aconteceu antes, foi esquecido e agora se repete. Meus netos logo se cansarão de Squirtle, Oddish, Rattata, Jigglypuff e Magikarp. Que se divirtam agora. O game os faz sentir-se parte do grupo. É a tal sensação de pertencimento. Quanto aos adultos, sobretudo ministros, espero que, em breve, se lembrem do tempo perdido caçando monstrinhos e voltem à realidade. Sem aumento. O senso crítico não é tão óbvio de enxergar. Mas que falta ele faz.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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Posted in: Crônicas