Quando virei adulto [Guilherme Tauil]

Posted on 16/08/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

O poeta Alcides Villaça acertou em cheio quando comparou a internet a uma vaca gorda voadora que nos fornece ótimo leite e bosta fresca. Há quem distinga – arrematou. Ao contrário do que juravam os avós nos anos 2000, a internet tem arroubos de sabedoria que não constam na Barsa. Um dos meus preferidos é sobre a vida adulta: “quem gosta de sexo é adolescente, adulto gosta é de pagar boleto.”

Não quero deixar escapar nada sobre a vida sexual de ninguém, mas é difícil discordar. Pagar conta é realmente a prática mais comum da maturidade. Lembro de minha mãe mandando que eu fosse pagar seus boletos na lotérica. Eu tinha uns treze anos e ainda não era capaz de compreender a didática com que mamãe, professora, estava me ensinando a arte de ser adulto: primeiro um carnê de crediário, depois uma continha de luz, de telefone e de repente estava entrando em filas intermináveis para quitar todas as dívidas do mês.

O treinamento foi valioso, mas não foi na lotérica em que aprendi de verdade a ser gente grande. Meu marco da passagem à vida adulta se deu no chuveiro, quando me peguei precisando de uma lixa de pé. Virar adulto é isso: pela primeira vez, esfregar a lixe de pé nos calcanhares com muita serenidade, sem pensar no que está acontecendo. Somente um adulto é capaz de cumprir o ritual sem estranhamento. Até então, a lixa não passava de um objeto distante da minha vida, sempre encostado no canto do box. Não servia de brinquedo, não servia de decoração e nem desconfiava de que algum dia as solas do meu pé fossem criar uma áspera indiferença dérmica. Crescer é descobrir a utilidade de todas essas ferramentas estranhas que os pais gostam de ter em casa.

De fato, depois desse banho, os objetos que habitam minha casa passaram a fazer sentido. Sobretudo os utensílios de cozinha. Ser adulto é criar intimidade com a cozinha. Só os jovens, que acham que a aurora da vida espera por nós, é que topam a labuta gastronômica sem as armas necessárias. O adolescente vai tentar se virar com o que tem, dar um jeitinho usando o garfo para bater ovos; mas o adulto abrirá a segunda gaveta da pia, espécie de depósito dos troféus da maturidade, e, impávido, escolherá os instrumentos próprios para a peleja culinária.

Quando saí de casa para morar sozinho, minha caixa de ferramentas abrigava um martelo, um alicate, uma chave de fenda e metade de um rolo de fita isolante. Foi a vida, e não a Leroy Merlin, que me muniu das ferramentas as mais diversas. Hoje tenho meu próprio arsenal. E por mais que às vezes ache um exagero ter cinco tipos de fitas ou desconfiar de que nunca precisarei de um nivelador, reconheço meu pai nessa chave de grifo e sorrio satisfeito.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas