Um pé no céu, outro no inferno [Cássio Zanatta]

Posted on 15/08/2016

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Cássio Zanatta*

Uma vez por semana, viro o Deus de um mundo que, não sendo Deus, levei não seis dias, mas cinquenta anos para criar. Um criador confuso, que vira e mexe se espanta com a criatura; ela tem vida própria, o orgulha, o humilha, ri de sua condição ridícula, tentando criar um mundo aos tropeções, sem sentido nem método: quando começa, nunca sabe onde vai parar.

Uma vez por semana, viro abóbora. Dessas orgulhosas, que se enfiam na terra e muito de vez em quando põem a cabeça para fora para ver se alguém está reparando. E nunca aconteceu de aparecer alguma fada que me transformasse em carruagem. No máximo, doce, misturada com coco, mas que ninguém lambe os beiços e pede a receita.

É quando sou desmascarado por mim mesmo. Recebo xingamentos, junto com beijos, confete junto a desprezo. Já houve escarro no rosto mas também um olhar que brilhou. Nunca sei quando está bom; quando é alta a expectativa, maior a frustração; quando nada espero, pareço agradar.

Uma vez por semana, Beatriz me estranha e me olha de canto, querendo saber quem é esse aí.

No fim de semana, me perdoo por tudo, mas terça chega com seus pecados. Nesse dia, o cachorro que não tenho me ataca. O vizinho me ignora. A multa chega, para me lembrar da minha divindade nenhuma. O banho não desperta. Mas sigo nessa imbecil necessidade de admiração, que convive com o terror de ser desmascarado.

Uma vez por semana, me lembro do que, no dia seguinte, esqueço. “Faça-se a luz!”, ordeno. E a energia cai, uma árvore ignora meu comando e tomba na fiação da rua. Espectro de Deus.

Uma vez por semana, me pego assobiando uma música que ninguém teve coragem de compor, de tão ruim. Pior: no vagão cheio do metrô, com todo mundo me encarando. Pobre Deus, que não consegue desaparecer quando estala os dedos. Fazer chover, não sabe. Voar, nem tenta.

Criador fajuto, não sei fazer desaparecer a ressaca, a remela no olho, a espinha no rosto, a espinha no peixe e menos ainda sei quando é parágrafo.

Quando não é.

E no entanto, as linhas se sucedem. Umas sobre as outras, vão formando um improvável edifício. É um milagre, mas atribuí-lo a mim seria blasfêmia. Sento-me diante do computador e espero. Espero. Espero. Até que adormeço e sonho com o texto. Só não sei se foi um anjo ou o diabo quem me soprou. Não mereço crédito algum, sou inocente, fui possuído, a culpa é de outro.

Aí a crônica sai assim, desse jeito, fazer o quê?

Deus mesmo, só me sinto quando crio você, leitor.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas