Como se fosse um bricabraque [Raul Drewnick]

Posted on 14/08/2016

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Raul Drewnick*

Está escuro e frio. Poderia ser a morte, se o amor nos permitisse esse luxo. Ele nos quer bem vivos, para louvá-lo e cortar-lhe as unhas encravadas.

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Depois de cada reunião em que os parnasianos declamavam seus poemas, um funcionário recolhia com luvas de seda e uma pinça as vogais de ouro lançadas no tapete junto com os preciosos perdigotos.

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A poesia deveria nascer em árvores e confundir-se de tal maneira com os frutos que não se pudesse distinguir um soneto de uma maçã.

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Ele gostaria de ter morrido ouvindo uma brisa que assobiasse uma canção de Cole Porter, numa tarde tão antiga que hoje ninguém mais se lembrasse daquela tolice toda sobre ele ter morrido de amor.

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Se for seu destino arder no inferno, ele já escolheu o pecado: a luxúria. A simples palavra já o deixa em estado de febre e, quando é tomado por seus sintomas, ele se torce, se retorce, se contorce, se dobra, se curva, se recurva, e morde-se nos lábios, e arranha as palmas das próprias mãos, e se inteiriça, e se goza, como se estivesse se possuindo.

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Bem fazem os homens que na agenda têm endereços de motéis. Que mulher há de querer seguir um poeta? Os poetas só conhecem o caminho das estrelas e da lua.

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Quando ela ordena “agora!”, ele se compadece de todos os césares mortos, alheios já aos suplícios e aos gozos da carne, e crava-se dentro dela, com a irrefutável legitimidade da carne viva e cobiçosa.

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Eu olhava para aquela mochila que ela sempre carregava e imaginava a vertigem que sentiria se fosse um dos objetos ali dentro, sempre ansiando pelo instante em que os dedos dela trouxessem pela proximidade a esperança de um toque, tateando naquela intimidade escura e morna.

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Quem há de me respeitar, de me tomar a sério? Sou um desses homens que choram se veem um passarinho morto.

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Que o amor nos tenha matado é a lógica, nada mais. Que tenhamos gostado tanto talvez seja sem-vergonhice.

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A mais deliciosa conquista do sistema decimal foi o sanduíche de metro.

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No Sul é um fato: se o miado é forte, só pode ser um maragato.

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Glória a Deus, sim, e que um pouquinho dela possa sobrar para mim.

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Na estante, três motivos para qualquer um desistir de escrever: Shakespeare, Pessoa, Dante.

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Quando você pensa conhecer todos os truques do amor e imagina estar imune a eles, certa manhã um passarinho aparece, dá três bicadas na sua janela e avisa que traz um recado. Você pergunta de quem é, e ele diz que você sabe muito bem.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas