Será que vai chover? [Carlos Castelo]

Posted on 10/08/2016

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Carlos Castelo*

O poeta Manuel Bandeira comentava que percorrer as crônicas de Rubem Braga era sempre bom. Mas quando o capixaba estava sem assunto era ainda melhor lê-lo.

Percebi claramente o fato revisitando vários desses registros do gênero “palavra puxa palavra” no magnífico box do autor editado pela editora Autêntica.

Hoje estou sem nada para discorrer aqui, algo me diz que estou prestes a consumar um dos melhores textos já postados na Rubem.

Por causa do meu fastio vou versar um pouco sobre a ausência de assunto em si. Falta do que falar me lembra uma história do cartunista Paulo Caruso. Disse-me ele que uma vez estava no Rio e entrou no elevador de um prédio na Zona Sul.

Percorreu alguns andares e a porta se abriu. Entra o Chico Buarque de Hollanda. Fica aquele vazio constrangedor por um tempo infindável. “O que dizer para o Ardósia, ainda mais sozinho com o indivíduo num ascensor?” – conjecturava o artista do traço. Creio que Caruso deva ter imaginado algumas possibilidades. Algo assim:

“Parabéns pela letra de Construção, das coisas mais geniais da música brasileira aquilo”.

“E o Politheama, hein?”

“O Marais é legal? Ou prefere o Leblon?”

A questão é que nada do que poderia dizer cairia bem num momento daqueles. Foi quando resolveu proferir algo de improviso, considerando que qualquer coisa é melhor que a mudez num elevador. Especialmente dividindo-o com um ícone.

– Eu também tenho um Chico na família – soltou segundos antes da porta se abrir e o bardo da MPB sair para o calçadão e o sol.

Do meu ponto de vista, a escassez de assunto comanda o mundo. O fato de não ter o que comentar, avalizar ou divergir poderia levar as pessoas a pensarem sobre suas próprias existências e o fato transformaria o planeta. Como muita gente poderosa está interessada em que isso nunca aconteça, é preciso preencher a vida com conteúdo. Na maioria das vezes sem conteúdo algum, mas recheá-la ao máximo de premissas é mais do que necessário para mantê-la como está.

A minha hipótese explica a extensa programação da TV, os videogames, os botequins, o Pokémon Go, a meteorologia, as redes sociais, as Olimpíadas e até esta singela crônica. Sem eles ficaríamos como o Paulo Caruso diante do Chico Buarque: calados e, por conseguinte, filosofando sobre o devir.

Falta de enunciação gera até obras de arte. Um copo de Cólera, de Raduan Nassar, considerado o maior escritor brasileiro contemporâneo é o quê? Um sujeito vai pra uma chácara, transa com uma mulher e depois fica alterado porque as saúvas comeram a cerca viva da sua propriedade. Que magistral paralisia.

Mas há o lado bom, como em tudo. A falta de tópicos a discutir já levou um grande número de pessoas a deixar a inércia para entrar nas vias de fato.

– Será que vai chover?

– Não sei.

– Bom é sol, né?

– É.

– Vai fazer alguma coisa?

– Não.

– Eu também não.

– É?

– É.

– Humm, sabe que isso me deu uma ideia?

– É?

– É.

– Qual?

– Vamos pra algum lugar?

– Pode ser.

E, por causa da completa inexistência de assunto, os dois abandonaram a letargia, partiram dali e foram engendrar uma vida.

Em tempo: viram como a minha anorexia verbal rendeu um textinho até razoável? Não é à toa que Rubem Braga é considerado o rei dos cronistas.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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