A perseguição do pegador de salada [Elyandria Silva]

Posted on 09/08/2016

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Elyandria Silva*

Você chega ao restaurante lotado e, primeiro, seguindo a ordem estabelecida, serve-se de salada. Tem uma fila grande. Várias pessoas, antes de você, já se serviram desta mesma salada e, claro, com o mesmo pegador. Dependendo da parte onde for pegar ainda está quente da mão anterior. Assim, conclui-se que você é só mais um (a) a dividir o mesmo cabo do pegador para salada com inúmeras pessoas. O mesmo acontece com as colheres dos outros pratos. O que você faz? Nada, absolutamente nada porque você precisa se servir e segue na fila. Então, como em muitas situações na vida, você sorri, principalmente quando está sendo filmado e se acostuma a alternar, em um dia segura na ponta de cima do pegador, no outro dia na haste abaixo, perto dos “dentes”. E procura não pensar por onde todas aquelas mãos andaram e pegaram, acima de tudo as mãos que passam pelo álcool gel como se ele não estivesse ali. E lá está o homem da testa suada e da camisa azul me perseguindo junto com pegadores de salada de chifres e rabos, assustadores, contaminados.

Sem querer e sem jamais ter prestado atenção ou pensado nisso, certo dia, por culpa de um homem com destino garantido para a calvície, camisa quadriculada azul, tênis branco e mãos grandes passei a desenvolver uma síndrome de pegadores de salada em restaurantes. Chegou rápido, caminhando na ponta dos pés, ocupou seu lugar na fila, limpou a testa com a palma de uma das mãos e a enxugou nas calças, possivelmente suor. Depois limpou o nariz, discretamente, num gesto de segundos, que era menor que as mãos. Na sequência pegou um prato, foi em direção às saladas e, com a mesma mão que limpou a testa e o nariz, agarrou no pegador e serviu-se de saborosa salada. Naquele momento, eu soube que nunca mais poderia me servir de salada, em paz, durante toda a minha vida. Eu o imagino em todas as filas de restaurante.

A inabilidade para a culinária cotidiana, a falta de tempo e a desistência do sonho romanesco de ter uma cozinheira baiana com uniforme que fique a meu dispor o dia todo cozinhando iguarias enquanto me sento diante de mesas fabulosas como uma “madame” de novela me arremessam todos os dias para filas de restaurantes, lanchonetes e outros recantos alimentícios que cobram por aquilo que a pessoa come, mas nem sempre a pessoa come aquilo que paga. Assim, conformada com o destino passei a aceitar o fato de que teria que dividir pegadores de salada, colheres e conchas, todos os dias, com desconhecidos. Isso fora as bandejas, os pratos, os talheres, enfim, tudo ou quase tudo. Suponhamos que eu, você, o fulano e a ciclana comemos no mesmo restaurante todos os dias; a bandeja que eu uso hoje pode ter sido a mesma na qual você usou ontem e o prato que eu comi ontem pode ser o mesmo no qual o fulano comerá amanhã. Jamais saberemos com certeza, mas a probabilidade é grande.

Com uma bolsa grande me imagino abrindo-a e tirando de dentro minha própria concha, minha própria colher e, claro, meu próprio pegador para salada, todos brilhando. A liberdade de pegá-los em qualquer parte, sem ter de calcular espaços não tocados pelos desconhecidos sisudos da fila gigante. Peso o prato e posso comer em paz livre do homem calvo que pratica higiene nasal antes do encontro com a alface e as cenouras.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas