Carta a Caio [Daniel Russell Ribas]

Posted on 08/08/2016

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Daniel Russell Ribas*

para ler ao som de Cazuza

Querido Caio,

Começo esta mensagem para além de todos os muros com dois pedidos: um de desculpas, outro de agradecimento. Talvez você (perdoe-me a intimidade; pedido de desculpas no. 2), naja e sem a imposição démodé da carne, saiba o que virá. O mundo é do tamanho de nossas asas e as tuas se expandem através do tempo. As minhas, assim como tantos, se esticam até um pouco antes do fim do espaço. Enrolo, né? Ah, se soubesse como é difícil ser direto… ainda mais quando importa. Talvez por isso escreva crônicas, numa vã tentativa de forjar alguma honestidade.

“Não quero filosofia, quero amantes!”, ouço seu grito. Tudo bem, querido. Apesar de nossas bocas nunca terem se tocado, você viveu na minha por mais de um mês. Fui monitor em uma exposição em sua homenagem. Discorri para ansiosos e incautos sobre sua vida e obra. Usei dados como escudo e amor, arma. Porque me apaixonei quando te reli, sabia? Há algo tão íntimo, belo e tenebroso naqueles textos que sei que foram escritos para mim. Todos devem dizer o mesmo, mas eu sei a verdade. Embora seja somente a minha. Você conhecia a sua e de toda uma geração linda e horrível. Prefiro crer que não fomos correspondidos por uma formalidade metafísica. Eu sou biologia e tu energia. Difícil combinar um restaurante japonês nessas circunstâncias.

A jornada terminou, o trabalho acabou, “Mas, e o humour?” Resiste, querido. Todos nós, aliás. Vivemos em uma mais época turbulenta. O país está lindo por fora e podre por dentro, como a maçã da Branca de Neve. As únicas mudanças parecem ser para trás. Há protestos e muita repressão. Soa familiar, darling? Uma nova geração de sobreviventes se forma, com a esperança vermelhovida preservada no interior de um fruto envelhecido. Tal como a borboleta se liberta de um casco apunhalado. Sangramos, mas a vitalidade, esta espécie de humour, segue. Você sintetizou tão bem a transição. Trocamos os morangos por um sabor amargo, mas ainda precisamos de uma voz para retirar este gosto da boca.

Aí, residem as desculpas: repetimos os erros. Não aprendemos. Como na charge do homem moderno caminhando no sentido oposto ao mapa da evolução: “Dá volta, pessoal, que deu merda.” Você escreveu sobre isso em 70 e 80. Tudo foi registrado e re-editado. Entretanto, insistimos em abrir filiais do museu de velhas novidades mencionado por seu amigo. A mais recente fica na praia, onde é mais bonito para se alienar. Só cuidado para não regurgitar pedras de tempos e locais distantes. Vai descobrir que não saímos do mesmo lugar. Sabe quanto tá o saco de feijão? Ainda estamos tão cansados…

E pra que ser grato?, eis a questão inevitável. Por ti. Pela beleza, que tanto perguntamos por onde andará. Você capturou-a gentil, transformou-a em tinta e linguagem e libertou-a sobre nós, leitores. E a cada pétala que nos toca, somos fortalecidos com a certeza de que nada é irremediável. É um movimento contínuo de ida e recomeço. Só a vida é certa. Esta flor bonita e frágil, atacada por caramujos, protegida pelas mãos de jardineiro hábil como tu. Obrigado pelas epifanias que ainda florescem.

Com amor, DRR

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas