A dor de entremeio [Alexandre Brandão]

Posted on 07/08/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Para Alexandre e Antonio

Penso em dois amigos, poetas e conterrâneos, a quem devo a chance de ter passado por experiências poéticas não muito usuais. Um deles, num dia, e, muitos anos depois, o outro, ao lerem um de seus poemas em uma pequena roda na qual conversávamos, deram uma travada, tropeçaram na leitura e sucumbiram à lágrima. Qualquer leitor percebe que, na criação daqueles versos, ambos foram aonde poucos vão — ao inferno, ao céu, sei lá em que extremo está localizado o sítio pelo qual transitam os verdadeiros poetas. Vi quando ambos reviveram o gesto inaugural de seus poemas, momento inevitavelmente de caos, de aparição sem disfarce das muitas camadas da emoção, empilhadas sem ordem sobre um móvel esquecido entre o cérebro e o coração.

O que o poeta faz ninguém faz. Possuído pela dor — para ser coerente com as leituras que ecoam nesta crônica, tenho de falar em dor —, ele a espalha no papel, depois, com algum distanciamento — quando fica a serviço da razão —, ordena tudo em versos, que deixam de ser dor somente e se transformam em beleza doída, em arte. O leitor tem contato com a dor transformada e reconhece a dor bruta sem nunca alcançar sua intensidade. O poeta, ao voltar algum tempo depois ao poema, revê na beleza com que ornou sua dor a dor autêntica — e seu corpo acusa o golpe.

O que há de extraordinário nisso? O poeta mergulha no que lhe é mais íntimo e exterioriza sua intimidade para torná-la atraente a quem nada tem a ver com ela. Ele doura a pílula, trapaça, mas, no fundo, no fundo, não ordena o caos. (E ele, mais que ninguém ou mais ninguém, sabe disso.) Se, ao escrever, o poeta corta, longe da vista de todos, os pulsos, ao ler, repete o gesto, a vista de poucos, e sangra de novo.

Escrevo com ostentação, certo de que estive entre uns poucos escolhidos, num instante com vocação de raro. Em público, o poeta evita a leitura autofágica, reservando aos mais chegados, em um sarau improvisado, o próprio desamparo. É um momento mais de confissão que de outra coisa — nele, a tal vaidade do artista não entra, talvez fique fumando lá fora, no sereno frio.________

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* Alexandre Brandão
é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

 

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