Manoel, nome de rua [Guilherme Tauil]

Posted on 02/08/2016

3



(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

“Não quero mais voltar da escola com o vô”, resmungou a menina, enquanto deixava a mochila na sala. A avó deu sua risadinha de canto, imaginando quais das muitas manias do marido teria irritado a neta desta vez. “Ele é muito lerdo, fica parando de poste em poste!”, arrematou, fechando a porta do seu quarto. Dona Maria achou estranho, tirou o sorriso do rosto. Do corredor, viu que Manoel, ainda no quintal, nada tinha escutado. Sem parecer preocupada, foi atrás da neta para fazer algumas perguntas. Sentou-se na cama e, ajeitando os cabelos da menina, perguntou se fazia tempo que o vô vinha se apoiando em postes. Depois de ouvir o relato queixoso, deu razão a ela, balançando a cabeça devagarinho, dizendo que já tinha mesmo idade para voltar sozinha. Saiu do quarto em silêncio, apoiando-se na parede do corredor.

Manoel não era de ir em médico, mas sempre teve muitos livros de medicina – os quais, agora que Maria encaixava as peças, andavam sendo consultados com mais frequência. Achou melhor não pensar naquilo: se ele estivesse se sentindo mal, procuraria ajuda. Nos dias seguintes, passou a observar com mais atenção o marido, que agia normalmente: cuidava dos passarinhos, limpava o carro, fumava seu maço de cigarro, às vezes botava um disco na vitrola e tossia. Mas tossia como todo velho fumante.

Um dia, Manoel parou de fumar. Não deu explicações, não falou nada. Apenas não comprou o maço. Dona Maria deu sua risadinha de canto e sentiu-se um pouco aliviada. O marido agora cuidava dos passarinhos, limpava o carro, às vezes botava um disco na vitrola e tossia. Mas tossia como todo velho ex-fumante.

Assim Manoel seguiu tossindo como tossem sempre, até se dar conta de que aquela tosse tinha algo a mais, algo que o levou pra cama do hospital, depois pra cama de casa, depois pra do hospital e aí já não voltou.

Não cheguei a conhecer meu bisavô, mas era com sua risadinha de canto que a bisa Maria falava dele todas as vezes. Hoje, o velho Mané virou nome de rua. Está na placa: Manoel Rosa Nogueira Filho. É uma ruazinha quieta, sem saída, num bairro afastado. Boa pra se sentar e fumar um cigarrinho.

__________

* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

Anúncios
Posted in: Crônicas