Confesso [Cássio Zanatta]

Posted on 01/08/2016

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Cássio Zanatta*

O padre disse que não era para fazer, mas não só eu fiz, como desconfiava que ele também fazia. Roubei marzipã da loja sem saber o que era, para depois descobrir que não gosto de marzipã nem levo jeito para o crime.

Não matei passarinho com estilingue – não por bondade, porque era míope feito uma porta e ruim de pontaria. A campanha dizia para não dirigir depois de beber e não lembro qual das duas coisas fiz primeiro. O suco estava vencido e eu o servi às visitas. Só respeitei o limite de velocidade perto do radar.

Fiz piada com gago e fanho e, quando não fui eu, dei a risada mais alta. O prefeito mandou economizar água e levei meia hora no banho para melhorar da ressaca. Minha filha pediu minha opinião e eu não tinha nenhuma. Comecei a gostar de Português porque a professora sorria com todos os predicados. O médico pediu para evitar queijo e comi até com banana.

Ensaiei o que dizer trinta dias e noventa noites e, quando foi preciso, fiquei mudo. As tábuas da lei mandavam não cobiçar a mulher do próximo e, sinceramente, achei exagero – só olhar, admirar, ô gente, que mal tem? Gaguejei feio na apresentação e me despediram por justa causa.

Deixei para a última hora, não contei a verdadeira história, não medi as consequências nem cedi o lugar no metrô ao idoso. Não me comovi com o malabarista no sinal, não achei Maceió essa coisa toda, não dei os 10%  ao garçom (ele mereceu, ou melhor, não mereceu). Não marquei o gol feito por displicência e afundei o time.

Reconheço que umas vezes gostei de quem não podia e não devia –  o verbo me é incerto, talvez tenha sobrado um pouco da tontura.

Vi o holerite do colega escondido para descobrir quanto ele ganhava e se era mais do que eu.  Fiquei contando os lustres nas paredes no discurso de formatura. Peidei disfarçando no elevador e olhei indignado para o moleque ao lado, que era inocente. Uma vez fiquei na dúvida se aquilo era amizade ou coisa maior, tinha uns olhares.

Já me disse doente para escapar de prova, de encontro, de reunião. Menino, ajudei a vizinha a subir as compras com um olho nela, outro  na melancia. Nunca decorei como é quinhentos em algarismos romanos, nem entendi para que serve saber isso a não ser nas palavras cruzadas. Tive vergonha da inocência de um amigo e vejo hoje que o ridículo era eu.

O síndico proibiu a gente de jogar bola e esvaziamos todos os extintores em represália. Recusei emprego por preguiça e ser par de valsa de debutante por vergonha. Chamei de canastrão o ator sem ter assistido ao filme. Criei campanha beneficente em meu único benefício. Não escondi direito o lança-perfume, a revistinha de sacanagem, essa timidez danada e acabei descoberto.

Confesso que não me confesso desde que os pecados eram inocentes.

De tudo sinto orgulho e durmo feito um bebê.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas